segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sobrevalorizados

aqui referi alguns discos de pop-rock cujo sucesso (junto do público, da crítica ou de ambos) esteve aquém do que, em minha opinião, mereciam. Mas também há os que penso serem frequentemente sobrevalorizados.

Claro que dizer que um dado disco tem sido sobrevalorizado não equivale a dizer que esse disco seja mau; pode simplesmente não ser tão bom como se diz. Seja como for, isto são apenas as opiniões de quem se esforça por ouvir a música sem ideias preconcebidas, se é que isso é mesmo possível. Espero, ainda que de modo algo telegráfico, ser capaz de justificar minimamente as minhas opiniões.


Slowhand, Eric Clapton (1977)
Um dos maiores sucessos de Eric Clapton, mas também um disco sem o mais pequeno rasgo de inspiração. É verdade que Clapton é um grande guitarrista, mas neste disco tudo soa demasiado previsível e sensaborão, onde nem sequer faltam canções xaroposas como o popularíssimo Wonderful Tonight. Este Clapton nem parece o intérprete e compositor inspirado e emocionante dos Derek and the Dominos. Uma pena.

The Wall, de Pink Floyd (1979)
A este pomposo duplo album falta a robusta placidez reflexiva que, desde a entrada de David Gilmour, tinha feito da música dos Pink Floyd um caso singular. Em vez disso, os Pink Floyd optam aqui por uma espécie de espectáculo operático, repleto de um pedantismo musical que muitas vezes chega a roçar o histriónico. A voz metálica e afirmativa, quando não indignada, de Waters sobrepõe-se quase sempre à doce tranquilidade da voz de Gilmour, tão característica dos velhos Pink Floyd. Enfim, os Pink Floyd rendidos ao aparato e à vulgaridade do pathos musical imposto por Waters.

Born in the U.S.A., Bruce Springsteen (1984)
Custa acreditar como um músico que, até então, não tinha conseguido gravar um único mau disco, consegue fazer um disco onde dificilmente se encontra uma canção inspirada. Neste caso, pouco mais há do que Bruce Springsteen a macaquear-se a si próprio em versão fast food musical, com muita batida forte e muita economia de acordes. A capa está ao nível do conteúdo. E vendeu que se fartou!

Nevermind, Nirvana (1991)
O disco tem algumas canções simples e eficazes, mas não creio que se justifique o coro de elogios que tem recebido. Nota-se uma certa autenticidade expressiva na voz e na música de Kurt Cobain. Mas isso não é tudo o que se espera da boa música, até porque quando a gama de emoções expressas é muito limitada, também pode resultar em monotonia, como me parece ser aqui o caso. Não é raro a voz de Cobain soar irritantemente afectada, confundindo expressividade com gritaria inconsequente.

Blue Lines, Massive Attack (1991)
Um disco muito bem produzido, mas muito chato como quase todo o chamado trip-hop. É certo que por vezes consegue ser envolvente, mas apenas quando estamos algo distraídos ou então quando somos adeptos incondicionais deste som. Não é o meu caso. 

Use Your Illusion, Guns n' Roses (1991)
Disse que um disco sobrevalorizado não tem de ser um mau disco, mas acho que este é mesmo tão mau quanto sobrevalorizado. Quase tudo soa a plástico, destacando-se a insuportável voz de adolescente rebelde mimado de Axl Rose e as melodias açucaradas de fazer derreter as pedras da calçada, sobretudo quando Rose saca da garganta o seu arrebicado vibrato. Imperdoável foi mesmo o que os GnR fizeram no segundo volume deste álbum ao clássico de Bob Dylan Knockin' on Heaven's Door. Apesar de não ser das melhores canções de Dylan, esta versão consegue transformá-la numa grotesca caricatura do original. No fundo, os GnR não passam de uns Bon Jovi armados em rapazes mal comportados. 

Definitely Maybe, Oasis (1994)
Confesso que nunca compreendi o estrondoso sucesso deste disco (o sucesso de crítica, não o sucesso de vendas, claro). As melodias imberbes são mais do que batidas; os três ou quatro acordes do costume são tocados como de costume, nos ritmos do costume. Ao fim das três primeiras músicas já se fica com a sensação de que se está a ouvir sempre a mesma coisa disfarçada de coisa diferente. Não se encontra aqui nada que os Stone Roses, por exemplo, não tenham feito de forma infinitamente superior, mais de uma década antes. Uma belíssima capa (isso sim!) não pode explicar tudo.

Mellon Collie and the Infinite Sadness, The Smashing Pumpkins (1995)
Um disco demasiado longo e confuso, com muitas músicas para esquecer (a começar pelo pobre instrumental pianístico inicial), e uma ou outra boa canção pelo meio. É pouquíssimo para o alarido que suscitou quando saíu. O pior mesmo é a voz cansativa e algo forçada e adolescente de Billy Corghan. 

The Fat of the Land, Prodigy (1997)
Sem dúvida que os Prodigy criaram um som instrumental próprio, com uma desenvoltura e poder rítmico algo hipnótico e ritualisticamente eficaz. Há nesta música frenética algo de ancestralmente selvagem e, ao mesmo tempo, futurista. The Fat of the Land é, sem dúvida, o disco dos Prodigy onde isso foi melhor conseguido. Porém, este som algo alucinante e aparentemente ameaçador não deixa de resultar também algo maçador, tornando-se frequentemente previsível. Basta ver que o ritmo das músicas —mais acelerado ou menos acelerado — acaba por ser quase sempre o mesmo. Mas tem também uma capa muito bem esgalhada.  

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Três livros

Com o ano a terminar, posso dizer que me deu muita satisfação estar, de diferentes maneiras, envolvido na publicação destes três excelentes livros de filosofia:

O Medo do Conhecimento, de Paul Boghossian, publicado pela Gradiva (colecção Filosofia Aberta) em Abril de 2015, com tradução de Pedro Elói Duarte. Ver aqui uma breve apresentação do livro, por Carlos Vaz Marques.



Filosofia da Matemática, de Stewart Shapiro, publicado pelas Edições 70 (colecção O Saber da Filosofia) em Junho de 2015, com tradução e notas do Professor Augusto Franco de Oliveira.



Liberdade de Expressão: Uma breve introdução, de Nigel Warburton, publicado pela Gradiva (colecção Filosofia Aberta) em Junho de 2015, com tradução de Vítor Guerreiro. Ver aqui uma recensão, por Aluízio Couto.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Cultura de lombada



Sócrates, o filósofo grego do século V a. C., ficou conhecido pela sua estratégia de argumentação que levava os outros ao desespero. Atacava tudo e todos, punha em causa aquilo que era dado como adquirido, destruía com uma facilidade incrível as convicções mais enraizadas. N'O Banquete (e noutros diálogos de Platão), através de perguntas aparentemente inofensivas, consegue apanhar em falso os seus interlocutores e levá-los a aceitar como verdadeiro o contrário do que antes defendiam.
Sócrates, o ex-primeiro ministro, também é um orador exímio e provocador.
José Cabrita Saraiva (no semanário Sol, de 19 de Dezembro de 2015)

Este é um bom exemplo daquilo que poderíamos designar como "cultura de lombada". Muitas pessoas decoram as estantes das suas casas e escritórios com lombadas de livros que nunca leram (quando não se trata de meras lombadas). O objectivo é exibir a cultura que não se tem para levar os outros a pensar que se está perante uma mente profunda e intelectualmente respeitável. A cultura de lombada exemplifica uma certa forma de encarar a cultura e o conhecimento: a cultura como mero adereço social ao serviço do prestígio pessoal. 

Mas a cultura de lombada pode manifestar-se de várias maneiras, mesmo sem lombadas: por exemplo, quando, em vez de se decorarem as estantes, se decoram os discursos com supostas referências eruditas. Quando num curtíssimo artigo de opinião a propósito da entrevista ao ex-primeiro-ministro José Sócrates se escreve o que se lê acima, estamos provavelmente perante uma manifestação da cultura de lombada. Sobretudo quando as referências culturais são forçadas ou quando não servem para esclarecer seja o que for, como parece ser o caso. 

Até porque, como a cultura de lombada não passa de pseudo-cultura — pois trata-se da aparência de um conhecimento que realmente não se tem —, é muito frequente o lombadista meter o pé na argola. Assim, afirmar que o filósofo Sócrates, no diálogo O Banquete, consegue, com perguntas inofensivas, levar os seus interlocutores ao desespero, fazendo-os «aceitar como verdadeiro o contrário do que antes defendiam», só pode ser entendido como cultura de lombada. Na verdade, não pode haver pior exemplo do método socrático (e, em particular, da fase preparatória da famosa maiêutica) do que precisamente O Banquete, onde os diálogos são meramente acessórios. O Banquete é pouco mais do que uma sucessão de belos discursos (de Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates e, finalmente, Alcibíades) sobre Eros, sem lugar para os célebres interrogatórios socráticos (o único e breve vislumbre disso ocorre imediatamente após o discurso de Agatão). 

Não sei se JCS leu há muito O Banquete e já não se lembra bem ou se foi o primeiro diálogo platónico que lhe ocorreu. Mas, se não é, parece mesmo cultura de lombada. Ainda assim, seria exagerado pensar que há algo de especialmente grave nisto. A não ser quando se trata de mais um exemplo a juntar a tantos outros que, a propósito e a despropósito, ouvimos e lemos nas TVs e nos jornais.   

A triste e bafienta cultura de lombada parece continuar, como em outros tempos, a florescer entre nós. Coitados de nós.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Kurt Masur


Morreu hoje o maestro Kurt Masur. Relembro aqui Im Abendrot (Ao Entardecer), uma das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, magneticamente interpretada por Jessye Norman e pela Gewandhausorchester Leipzig, dirigida precisamente por Kurt Masur. Este disco (Philips) é talvez um dos que mais vezes ouvi na minha vida, pelo que aqui fica o meu agradecimento.