quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O eterno retorno

A propósito de BD filosófica, ainda há quem se lembre da humorística Filosofia de Ponta, de Júlio Pinto e Nuno Saraiva, publicada semanalmente no Independente, no início da década de 90 do século passado?As pranchas foram reunidas e publicadas em 1996 num álbum pela Contemporânea Editora, de Matosinhos. Para quem não se lembra, deixo aqui uma prancha, com o humor do costume.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Uma busca épica da verdade



Finalmente, a edição portuguesa! O enorme sucesso de Logicomix: Uma Busca Épica da Verdade, a original banda desenhada matemático-filosófica dos gregos Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou, com arte de Alecos Papadatos e Annie di Donna, chega a Portugal, numa excelente edição da Gradiva. 

Para se ter uma ideia do sucesso deste livro, originalmente escrito em grego, basta ver que já foi editado nos seguintes países: Holanda, EUA, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Finlândia, Brasil (pela Martins Fontes), Croácia, Espanha, Noruega, Polónia, Dinamarca e República Checa, tendo edições em curso também na China, no Japão, na Rússia, na Turquia, em Israel, na Coreia do Sul, e até no Irão. O sucesso não é apenas junto do público, mas também da crítica, quase sempre muito positiva (quando não mesmo entusiástica), sendo-lhe dado destaque nas secções literárias dos mais prestigiados jornais do mundo: New York Times, Guardian, Financial Times, Washington Post, Independent, Time Magazine. Alguns deles colocam-no mesmo entre as suas melhores escolhas. A Amazon, por sua vez, conta com nada menos do que 162 recensões de leitores, com uma avaliação média de quase 5 estrelas. 

Apesar disso, o livro poderia, ainda assim, não ser grande coisa. Mas o sucesso é bem justificado. O que tem, então, Logicomix de especial?

Eu diria que o sucesso do livro deve muito à conjugação de quatro aspectos principais.

1. É uma ideia original e arriscada, que consiste em usar a banda desenhada para abordar temas abstractos e geralmente tidos como difíceis, como a matemática, a lógica e a filosofia. Tudo isso é feito com o pretexto de contar a história de vida de alguém que procura obstinadamente a verdade. 

2. Esses temas são abordados de uma forma muito acessível e até apelativa. O truque dos autores foi o procurarem contar a história romanceada da vida de Bertrand Russell, uma vida bastante diversificada e preenchida em termos intelectuais e não só.

3. Apesar de apresentadas de forma descontraída e acessível, as ideias de Russell e de outros matemáticos e filósofos não constituem meras caricaturas. Mesmo quando são discutidas de forma sumária, os autores sabem do que estão a falar. Até porque Doxiadis é, ele próprio, um matemático encartado, autor do best seller internacional de divulgação científica O Tio Petros e a Conjectura de Golbach, e Papadimitriou é professor de ciência computacional em Berkeley. 

4. Descreve o contexto intelectual e histórico de uma verdadeira revolução de ideias ocorrida entre o fim do século XIX e o início da Segunda Guerra Mundial, cujos protagonistas são cérebros tão brilhantes quanto tortuosos (a loucura é uma presença constante ao longo do livro), como Frege, Hilbert, Cantor, Wittgenstein, Poincaré, Gödel, além de Whitehead e do próprio Russell. 

Nada disto significa que não possa haver aspectos menos conseguidos do livro, tanto a respeito das ideias nele contidas como a respeito dos desenhos. Quem espera encontrar uma discussão profunda das questões matemáticas e filosóficas nele abordadas, irá ficar decepcionado. Mas é duvidoso que alguém procure tal coisa num livro de banda desenhada. O livro já faz muito ao introduzir algumas ideias aparentemente inacessíveis a um público alargado, mas interessado nelas. E até quem as conhece bem consegue apreciar o modo como os autores as tratam. 

A edição portuguesa, que inclui um prefácio do conhecido matemático Jorge Buescu, é muito cuidada. Pena é ainda se encontrar um ou outro deslize de tradução de alguns termos filosóficos. Mas nada de mais. 

Os autores mantêm um sítio na net totalmente dedicado ao livro.

Ficaria muito surpreendido se jornais de referência como o Público ou o Expresso se dignassem falar do livro nos seus suplementos literários semanais. Afinal, os seus critérios não podem descer ao nível de um New York Times ou de um Guardian.

NOTA: É bom saber que me enganei, pois o Expresso publicou mesmo uma recensão ao livro no seu suplemento Actual. A recensão é da autoria de José Mário Silva e pode ser lida aqui.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Arte e estética

Que algumas obras de arte não têm de todo qualquer propósito estético é bem diferente de admitir que muitas obras de arte não têm propósitos estéticos importantes. Muitas vezes os teorizadores escorregam demasiado facilmente da última afirmação para a primeira. Além disso, devíamos ser cautelosos acerca da tese de que muitas das grandes obras de arte não têm qualquer propósito estético. Isso não passa de um mito. (Uma das fontes do mito é as pessoas levarem demasiado a sério os "manifestos" dos artistas, que não devem tantas vezes ser tomados com mais seriedade do que qualquer outra peça publicitária.)
Nick Zangwill, Aesthetic Creation 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Parece que isso

Parece que as férias foram longas, mas isso não é verdade. Houve coisas atrasadas para fazer e, claro, este blogue teve de ficar para trás por uns tempos. Chegou a altura do regresso, mas com uma orientação ligeiramente diferente: a ideia já não é tanto apoiar os meus alunos de filosofia, mas ser simplesmente um blogue de filosofia e de outras coisas igualmente interessantes, como música, ciência, livros e filmes. 

Relendo agora o que escrevi atrás, dei-me conta que comecei com uma frase  ambígua. O que queria eu dizer? Que não é verdade que parece que as férias foram longas ou apenas que não é verdade que as férias não foram longas? Tudo depende da interpretação do termo «isso». Eu, que tenho um acesso directo à intenção do falante, estou em condições de desambiguar a frase, esclarecendo que «isso» refere as próprias férias e não o que parece das férias. 

Já agora, seria a interpretação alternativa razoável? A interpretação alternativa dá o seguinte: não é verdade que me parece que as férias foram longas. Mas como pode algo parecer-me de uma maneira e não ser verdade que me parece dessa maneira? Se me parece que foram longas, é verdade que me parece que foram longas. Não posso estar enganado quanto a isso, como diria Descartes. Portanto, esta talvez não seja uma interpretação razoável e talvez a ambiguidade seja meramente aparente. 

Mas será que não estou a fazer aqui alguma confusão? É bem possível. Vejamos. Talvez seja a palavra «parece» que não está a ser usada na primeira pessoa do singular. Pode ser que com este «parece» eu esteja a falar de quem lê e não de mim. Nesse caso, a frase não é assim tão disparatada. À parte a arrogância que é eu estar aqui a dizer o que parece aos outros. Como sei eu o que parece aos outros?

Mas que complicado é tudo isto! E ainda há quem pense que a linguagem pode ser totalmente transparente. E se o não for? Será que devemos deixar tudo como está e não nos preocuparmos com isso?

Mas que maneira de recomeçar...