quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Somos todos egoístas?

Foto: Aires Almeida

Eis a resposta de um filósofo à pergunta anterior. Pergunta e resposta encontram-se no interessante livro Que Diria Sócrates? (Gradiva), organizado por Alexander George. Podemos ler aí (na p. 237) o seguinte:

PERGUNTA
«Estou convencido de que todas as acções humanas são motivadas por interesse próprio: mesmo as chamadas acções altruístas são levadas a cabo com o objectivo de redimir uma culpa, ou de obter aprovação por parte de outros, ou mesmo para usufruir daquele sentimento agradável que nos preenche quando sabemos que fizemos uma coisa boa (acção que é essencialmente egoísta, considerando que o indivíduo que a pratica recebe uma recompensa espiritual, em vez de uma recompensa material). Como discordariam desta posição?»

RESPOSTA
PETER LIPTON: Há dias, estava eu a almoçar quando um diabinho poderoso me deu a escolher entre duas hipóteses: uma, os meus filhos singrarão numa vida próspera, mas eu viverei convencido de que eles vivem uma vida miserável ( o que faria sentir miseravelmente); a outra, os meus filhos viverão de facto uma vida de miséria, mas eu viverei convencido de que eles singram numa vida próspera ( o que me faria muitíssimo feliz). Assim que eu anunciar a minha escolha, a minha memória de ter feito a escolha esfumar-se-á; aliás, esfumar-se-á inclusive a minha memória de ter almoçado com o diabinho. sabe que mais? Vou escolher a hipótese «filhos felizes, eu miserável». Não sou nenhum anjo, mas este acto é altruísta.


domingo, 25 de novembro de 2012

Argumentos válidos

Foto: Aires Almeida
- Todos os argumentos bons são válidos?
- Sim, a validade é uma condição necessária para um argumento ser bom.
- E todos os argumentos válidos são bons?
- Não, a validade não é uma condição suficiente para um argumento ser bom.

Provavelmente a maior parte dos argumentos válidos não são bons, pois parece mais fácil dar exemplos de argumentos válidos que não são bons do que de argumentos válidos que sejam bons. Eis alguns exemplos de argumentos válidos que não prestam:

Exemplo 1

Deus existe.
Logo, Deus existe.

Exemplo 2

Deus existe e não existe.
Logo, Portugal fica em África.

Exemplo 3

Portugal fica em África.
Logo, Deus existe ou não existe.

Exemplo 4

Portugal fica em África.
Portugal não fica em África.
Logo, Deus existe.

Mas que são válidos, lá isso são.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

É dia da filosofia, vamos ao cinema!

Como tem sido habitual, os professores de Filosofia da ESMTG comemoram o Dia Mundial da Filosofia tentando filosofar um pouco. A ideia é cada um de nós partilhar com os outros a sua breve reflexão sobre um tema com algum interesse filosófico. Achamos que é mais apropriado comemorar o dia tentando praticar o ofício, ainda que modestamente, do que dizer coisas bonitas sobre a importância da filosofia. O tema é diferente todos os anos e neste foi decidido que cada um deveria escolher um filme filosoficamente interessante. Eis o meu texto, sobre um filme bem antigo: Grau de Destruição (Fahrenheit 451), de François Truffaut.


Felizes dos ignorantes?


A que temperatura queima o papel? A resposta é: a 451 graus na escala de Fahrenheit. E essa é também a temperatura a que queimam os livros, que são feitos de papel. Ora, Fahrenheit 451 é precisamente o título original do filme britânico, realizado em 1966 pelo francês François Truffaut, com base no livro do célebre escritor americano Ray Bradbury (falecido no passado mês de Junho). Grau de Destruição é o (infeliz) título do filme em Portugal.

A história desenrola-se numa sociedade futura de grande conforto material, a qual é zelosamente protegida por um governo (referido como a família) cujo único objectivo é manter as pessoas felizes. Está bom de ver que a família (o governo) deve saber o que é a felicidade. Na verdade, a família sabe melhor do que ninguém o que faz os seus membros (os governados) felizes. E sabe também o que perturba a paz social e os torna infelizes. Assim, a família sabe melhor do que ninguém o que, para o bem de todos, tem de ser evitado.

Mas o que poderá perturbar a paz social e a felicidade das pessoas? A família tem a resposta: a paz e a felicidade são perturbados pelo desconforto material, mas também pelo desconforto espiritual. O problema material parece ter sido resolvido, pois as pessoas têm emprego, não passam fome, vivem em boas casas e fazem muitas compras. Mas evitar o desconforto espiritual é bem mais difícil, pois este tem origem não só no desejo insatisfeito como na incerteza da dúvida. Nada pior do que pensar em perguntas difíceis, confrontar-se com ideias divergentes e alternativas ou dar asas a uma imaginação à solta. Quer dizer, a infelicidade encontra-se no pensamento crítico, na filosofia, na literatura, na poesia, na história. Só que é isto que abunda nos livros. Daí que os livros sejam verdadeiramente perigosos, incendiando as ideias e abrindo caminho à infelicidade. Por isso têm de ser banidos. O que as pessoas realmente precisam para entreter as suas mentes é programas de televisão (vistos em enormes e elegantes aparelhos de TV) que não as intranquilizem nem as façam pensar em coisas estranhas e complicadas: por exemplo, devem entreter-se com concursos interactivos em que se tenta acertar nos títulos de canções conhecidas, e coisas do género.

Mas há um problema: não basta proibir os livros, pois podem ser lidos às escondidas. É preciso destruí-los. E essa é a tarefa dos bombeiros, que vão às casas das pessoas suspeitas, procurando-os e queimando-os com jactos de fogo à temperatura de... 451 graus Fahrenheit. É o que faz, com grande dedicação, o bombeiro Guy Montag (Oskar Werner). Até ao dia em que fica incomodado com uma leitora que prefere deixar-se queimar juntamente com os livros do que perdê-los. Intrigado, Montag decide guardar sorrateiramente um dos livros para ver o que leva algumas pessoas a correr o risco de vida por eles. A partir daí, instala-se a dúvida no espírito de Montag. Incentivado pela sua atraente e perigosa amiga Clarisse (Julie Christie), começa a pôr em causa a sua profissão e acaba ele próprio por se tornar um ávido leitor. Só que, não podendo correr o risco de guardar os livros, junta-se a um grupo secreto de resistentes homens-livro, cada um dos quais decorou um livro inteiro. Assim, cada pessoa é um livro e os resistentes são uma biblioteca. «Que livro és?», pergunta-se a um deles. «Sou A República, de Platão, querem ouvir?». Juntam-se à volta de A República e ouvem. O conhecimento e a memória da humanidade são assim preservados secretamente na intimidade dos resistentes.


Mas serão mesmo as ideias contidas nos livros fonte de infelicidade? Seremos mais felizes se nos mantivermos ignorantes e não formos questionadores? Quem sabe, afinal, o que nos faz felizes? Este é um filme que ilustra bem a tese de que, em nome da felicidade geral e de uma concepção oficial do que é o bem, se podem urdir muitos totalitarismos bem intencionados. Como se antevê também em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell e em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.                            

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Heaven (Céu)

Quase apostava que não chega a 1% o número de alunos que conhecem ou ouvem a música dos Talking Heads. Foram uma verdadeira revelação na música rock do fim dos anos 70 do século passado e o seu sucesso confirmou-se amplamente ao longo das duas décadas seguintes. Vale a pena ouvir e, já agora, pensar um pouco na letra desta canção, intitulada Heaven (Céu). David Byrne, o cantor, diz que o Céu é um lugar onde todos querem entrar. Mas acrescenta que é um lugar onde nunca nada acontece. 

Bom, David Byrne está a falar de um bar que se chama Heaven. Mas será que esse bar não poderia, afinal, ser o Céu de que as religiões falam e onde todos querem entrar e ficar para sempre? E se for o Céu da eternidade, terá ele razão ao cantar que é o lugar onde nunca acontece nada? Bem vistas as coisas, se temos toda a eternidade pela frente, porquê fazer já seja o que for? Haverá sempre tempo para o fazer, pelo que se pode esperar infinitamente. Assim, talvez não aconteça mesmo nada e aqueles que dizem ser o Céu um lugar de tédio interminável tenham mesmo razão. Nesse caso, o argumento de que é a vida eterna que nos espera após a morte a dar sentido às nossas vidas não é lá muito persuasivo. Ou será?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cepticismo radical: o solipsismo.


Uma forma radical de cepticismo é o solipsismo. Mas há outras formas radicais de cepticismo. Talvez volte a esta ideia mais tarde. Por agora, deixo um texto sobre o cepticismo acerca do mundo exterior defendido pelos solipsistas, retirado do excelente livro Que Quer Dizer Tudo Isto? (Gradiva), do filósofo Thomas Nagel. A passagem encontra-se no capítulo 2, intitulado: Como sabemos seja o que for? (páginas 12-15)

Seja o que for em que acredites -- quer seja sobre o Sol, a Lua e as estrelas, a casa e o bairro em que vives, a história, a ciência, as outras pessoas, até mesmo a existência do teu próprio corpo --, é baseado nas tuas experiências e pensamentos, sentimentos e impressões dos sentidos. É só a isso que tens acesso directo, quer vejas o livro nas tuas mãos, sintas o chão debaixo dos teus pés, ou te lembres que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, ou que a água é H20. Tudo o resto está mais afastado de ti do que as tuas experiências e pensamentos internos e é só através destes que te alcança.
Normalmente não tens dúvidas sobre a existência do chão debaixo dos teus pés, ou da árvore que está lá fora, ou dos teus próprios dentes. De facto, a maior parte do tempo nem sequer pensas nos estados mentais que te tornam consciente dessas coisas: parece que tens consciência directa delas. Mas como sabes que elas existem realmente?
Se tentares argumentar que tem de existir um mundo físico exterior porque não verias prédios, pessoas ou estrelas, a menos que existissem coisas lá fora que reflectissem ou lançassem luz para os teus olhos, causando assim as tuas experiências visuais, a resposta é óbvia: como sabes isso? Trata-se apenas de outra afirmação acerca do mundo exterior e da tua relação com ele, que tem de ser baseada nos dados dos teus sentidos. Mas só podes confiar nesses dados específicos acerca de como as experiências visuais são causadas se já puderes confiar em geral nos conteúdos da tua mente como fonte de informação acerca do mundo exterior. E isso é exactamente o que está a ser questionado. Se tentas provar a credibilidade das tuas impressões apelando para as tuas impressões, estás a argumentar de forma circular e não chegas a lado algum. 
Será que as coisas te pareceriam diferentes se de facto tudo existisse apenas na tua mente -- se tudo o que tomas como o mundo real exterior fosse apenas um sonho gigante, ou uma alucinação, de que nunca vais acordar? Se assim fosse, então é claro que não poderias acordar, tal como acontece quando sonhas porque não haveria qualquer mundo «real» no qual pudesses acordar. Portanto, não seria exactamente como num sonho normal ou numa alucinação. Usualmente, pensamos que os sonhos têm lugar em mentes de pessoas que estão de facto deitadas numa cama real numa casa real, mesmo que no sonho estejam a fugir de uma máquina de aparar relva homicida pelas ruas de Sobral de Montagraço. Admitimos igualmente que os sonhos normais dependem do que está a acontecer no cérebro do sonhador enquanto dorme.
Mas não poderiam todas as tuas experiências ser como um sonho gigante, sem nenhum mundo exterior fora dele? Como podes saber que não é o que se passa? Se toda a tua experiência fosse um sonho sem nada lá fora, então todos os dados que tentasses usar para provar a ti próprio que existe um mundo exterior seriam apenas parte do sonho. Se batesses na mesa ou se te beliscasses, ouvirias o som e sentirias o beliscão, mas isso seria apenas mais uma ocorrência no interior da tua mente, tal como tudo o resto. Não vale a pena: quando queres saber se o que está dentro da tua mente pode ser um guia para o que está fora dela, não podes apoiar-te na maneira como as coisas parecem -- a partir do interior da tua mente -- para te darem a resposta.
Mas em que mais podes apoiar-te? Todos os teus dados acerca do que quer que seja têm de vir através da tua mente -- quer na forma de percepção, de testemunhos de livros e de outras pessoas, ou da memória -- e tudo aquilo de que tens consciência é inteiramente consistente com a hipótese de que não existe absolutamente nada além do interior da tua mente.
É mesmo possível que não tenhas um corpo nem um cérebro -- uma vez que as tuas crenças acerca disso vêm unicamente dos dados dos teus sentidos. Nuca viste o teu cérebro -- admites apenas que toda a gente tem um --, mas, mesmo que o tivesses visto, ou pensado que o tinhas visto, isso teria sido apenas mais uma experiência visual. Talvez tu, o sujeito dessa experiência, sejas a única coisa que existe, e, de qualquer modo, talvez não exista mundo físico -- nenhumas estrelas, nenhuma terra, nenhuns corpos humanos. Talvez nem sequer exista qualquer espaço.
A conclusão mais radical a tirar daqui seria a de que a tua mente é a única coisa que existe. Esta posição chama-se solipsismo. É uma posição muito solitária, e não houve muitas pessoas que a sustentassem. Como podes aperceber-te por este comentário, eu próprio não a sustento. Se fosse solipsista, provavelmente não estaria a escrever este livro, uma vez que não acreditaria que existem pessoas para o lerem. Por outro lado, talvez o escrevesse para tornar a minha vida interior mais interessante, incluindo, assim, a impressão da aparência do livro publicado, de outras pessoas a lê-lo e a comunicarem-me as suas reacções, e assim sucessivamente. Poderia até ter a impressão de receber direitos de autor, se tivesse sorte.
Talvez tu sejas um solipsista: nesse caso, considerarás este livro como um produto da tua própria mente, começando a existir na tua experiência à medida que o fores lendo. Obviamente, nada do que eu possa dizer poderá provar-te que existo realmente, ou que o livro existe enquanto objecto físico.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Cônsul de Bordéus e a desobediência civil

Haverá casos em que violar a lei é moralmente justificado? Esta é uma questão filosófica e é conhecida como a questão da desobediência civil. Há vários filmes que abordam este problema e o Cônsul de Bordéus, de Francisco Manso e João Correa, talvez seja um deles. A estreia do filme nas salas de cinema está anunciada para breve e conta a história do diplomata português Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal na cidade francesa de Bordéus durante a Segunda Guerra Mundial. Muito resumidamente, Aristides Sousa Mendes passou milhares de vistos a judeus perseguidos pelos nazis, de modo a poderem fugir aos campos de concentração e às câmaras de gás, salvando assim milhares de vidas. Mas para isso teve de desobedecer repetidamente ao governo português, sabendo que iria ser severamente punido, como veio depois a acontecer.  

Entretanto, ficam aqui com algumas imagens do filme. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Teste intermédio 2013


Já se encontram disponíveis aqui as informações (caracterização do teste, conteúdos e capacidades a avaliar, critérios de classificação, tipos de perguntas, etc.) para o teste intermédio de Filosofia, a realizar no dia 17 de Abril de 2013 pelos alunos do 11º ano.   

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Teses sobre o livre-arbítrio

Foto: Aires Almeida

Vi há dias num daqueles livrinhos de preparação para os exames que os deterministas moderados (ou compatibilistas) aceitam a tese de que os nossos actos são livres.

Atenção, isto é falso!

O que os deterministas moderados defendem é que alguns dos nossos actos são livres.
Os libertistas é que, esses sim, defendem que os nossos actos (todos, portanto) são livres.
Já agora, os deterministas radicais defendem que nenhum dos nossos actos é livre.

Parecem pormenores, mas não são. Além de que não há pensamento rigoroso que se dê ao luxo de desprezar os pormenores.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Paragem forçada

Os leitores meus alunos já sabem por que razão este blog tem estado parado nas últimas semanas. Pois é, não se pensa nem se escreve com as pernas, mas por vezes as pernas impedem-nos de escrever e de pensar. É precisamente o que se tem passado comigo, depois de ter partido os dois ossos da perna direita. Daí o silêncio dos últimos dias (sim, a operação correu bem, até porque estive sempre em boas mãos). 

Agora que regressei a casa, procurarei ir postando algumas ideias aqui no Questões Básicas, mas o ritmo será certamente mais lento, pois a perna ainda me dá muito trabalho. A propósito, deixo aqui uma pergunta para pensarem: pensamos apenas com o cérebro ou isso depende também do resto do corpo?

Fico à espera das vossas reflexões na caixa de comentários.

Ah, e cuidado com as motas! Fala-vos quem sabe: às vezes pequenas quedas dão grandes dores de cabeça. E quem diz cabeça, diz pernas. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pensar de A a Z


Saber pensar é das coisas mais importantes na filosofia. Não só na filosofia, claro, mas a filosofia não dispõe de melhor método senão pensar intensa e correctamente. 

Este livro de Nigel Warburton (autor de outros excelentes livros de divulgação filosófica) é uma bom recurso para nos ajudar a pensar e a argumentar bem. Pensar de A a Z percorre alfabeticamente os mais importantes aspectos da argumentação e mostrando como se podem evitar muitos erros argumentativos. Aí o leitor pode encontrar, numa linguagem muito acessível, esclarecimento sobre as mais importantes falácias, sobre os diferentes tipos de definições, sobre os argumentos e sua validade, entre outros. É um livro especialmente indicado para estudantes de filosofia do secundário.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Data do teste intermédio de Filosofia

Já está marcada a data do teste intermédio de Filosofia: dia 16 de Abril de 2013, terça-feira.

O teste destina-se a todos os alunos do 11º ano das escolas que decidirem aderir. Posso adiantar que, à semelhança de anos anteriores, todos os alunos do 11º ano da Teixeira Gomes irão fazer o teste. Entretanto, ficamos a aguardar as habituais orientações que irão chegar do GAVE.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um guia das principais disciplinas da filosofia


Este não é bem um livro destinado a alunos do ensino secundário, apesar de se tratar de um livro introdutório. Mas também não é inacessível a alunos que tenham um interesse particular na filosofia e pode dar uma ideia mais precisa, e talvez até mais rigorosa, do que algumas introduções mais sumárias podem proporcionar. O livro, coordenado por Pedro Galvão, da Universidade de Lisboa (e co-autor dos manuais adoptados na nossa escola), inclui capítulos que introduzem os leitores às disciplinas filosóficas abordadas no programa do secundário (entre outras disciplinas): lógica, ética, filosofia da acção, epistemologia, filosofia da religião, filosofia da ciência, filosofia política e estética. Este último foi escrito por mim. 

Fica aqui a sugestão, para aqueles que quiserem avançar um pouco mais longe no estudo da filosofia.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um bom ano lectivo

Foto: Aires Almeida

Um novo ano lectivo vai começar e desejo a todos os leitores, em especial aos meus alunos, um bom regresso à escola. 

A melhor ferramenta que podem trazer para as aulas de Filosofia é uma cabeça pronta a pensar por si. O resto (professor, livros, etc.) pode ajudar muito, mas o essencial é cada um estar mesmo disposto a pensar por si. Parece que não, mas dá algum trabalho. Mas também dá gozo e pode vir a ser muito útil. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Boas férias!

A segunda fase do exame de Filosofia está passada e todos os alunos se 
devem já sentir em plenas férias. Eu também estou quase a sentir o mesmo. 

Desejo a todos os alunos e leitores deste blog umas boas férias. Cá estaremos 
no início do próximo ano lectivo, talvez com cara lavada. Entretanto deixo-vos 
esta bonita canção, para apreciarem com calma.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Microbiblioteca básica de Filosofia

Várias pessoas (alunos e não só) me têm pedido para lhes indicar três ou quatro livros que sejam acessíveis e lhes dêem uma boa ideia do que é a filosofia, munindo-as também dos rudimentos necessários para começar a intervir na discussão filosófica de uma forma mais informada, rigorosa e disciplinada.

Bem vistas as coisas, o que me pedem é ideias para uma microbiblioteca básica de filosofia. Sugiro seis -- não apenas três ou quatro -- livros que apresentam a filosofia por vias diferentes: 

1) uma introdução geral, abordando os principais temas e problemas da filosofia; 
2) uma história da filosofia, para familiarizar o leitor com a tradição filosófica, os diferentes contextos filosóficos e seus principais protagonistas; 
3) um dicionário de filosofia, que é uma ferramenta a ter sempre à mão para esclarecer dúvidas e compreender melhor certas ideias e conceitos; 
4) um exemplo directo e actual de como se faz filosofia; 
5) um exemplo vivo do diálogo entre filósofos e pessoas comuns; 
6) um clássico da filosofia para começar.

1. Há, felizmente, muito boas introduções à filosofia para escolher, em língua portuguesa: a de Nigel Warburton, a de Simon Blackburn, a de Daniel Kolak e Raymond Martin, entre outras. Mas sugiro antes a de James Rachels, por ser clara, acessível e rigorosa (como as outras), mas num tom menos escolar do que a de Warburton, menos exigente para quem se inicia do que a de Blackburn e mais informativa e abrangente do que a de Kolak e Martin. 

James Rachels, Problemas da Filosofia (Gradiva)



2. Também há várias histórias da filosofia à escolha, algumas delas em vários volumes. Porém, a melhor porta de entrada para a história da filosofia é o mais recente livro de Nigel Warburton. Uma Pequena História da Filosofia inclui 40 curtos capítulos (de cerca de 5 páginas) sobre outros tantos protagonistas e momentos altos da tradição filosófica, desde os primórdios aos nossos dias. É um livro muito acessível, informativo, interessante e de leitura quase compulsiva.

Nigel Warburton, Uma Pequena História da Filosofia (Edições 70)



3. Há, talvez, ainda mais dicionários de filosofia publicados do que histórias da filosofia, alguns deles excelentes. Contudo, quase sempre têm um de dois problemas: ou têm demais para quem está a dar os primeiros passos ou têm de menos para quem quer avançar um pouco mais do que isso. Essa foi a razão principal que me levou a organizar o Dicionário Escolar de Filosofia, pelo que me arrisco a sugerir um livro do qual sou autor, entre vários outros colaboradores com mais competência científica do que eu próprio.

Aires Almeida (org.), Dicionário Escolar de Filosofia (Plátano)



4. Exemplos directos de como se faz filosofia são as obras dos próprios filósofos: de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Husserl, Russell, Sartre. Acontece que a maior parte dos livros destes filósofos não foram escritos a pensar sobretudo no leitor comum, além de muitos deles terem sido escritos há muitos anos, com um estilo, uma linguagem e exemplos próprios dessas épocas, dificultando naturalmente a compreensão do leitor actual sem qualquer treino na matéria. Filosofia em Directo, de Desidério Murcho é, pelo contrário, um livro em que se discutem as questões filosóficas numa linguagem actual e a pensar precisamente no leitor comum, mesmo no leitor sem treino filosófico.

Desidério Murcho, Filosofia em Directo (Fundação Francisco Manuel dos Santos)



5. Muitas pessoas pensam nos filósofos como seres distantes que discutem questões que pouco ou nada dizem respeito às pessoas comuns. Um exemplo vivo que contraria essa ideia encontra-se no livro Que Diria Sócrates?, no qual vários filósofos profissionais respondem a questões colocadas por pessoas com diferentes formações e preocupações. Trata-se das questões filosóficas de sempre a partir de exemplos actuais. É uma boa maneira de ver os filósofos dialogar com todo o tipo de pessoas, desafiando-as a pensar melhor e a reavaliar as suas ideias.

Alexander George (org.), Que Diria Sócrates? (Gradiva)



6. Como disse atrás, os clássicos da filosofia nem sempre são de fácil acesso a principiantes. Mas há, mesmo assim, obras que conseguem ser suficientemente acessíveis e que podem proporcionar um primeiro e compensador contacto directo com as ideias dos grandes filósofos. Meditações Sobre a Filosofia Primeira, de Descartes, é um bom começo. Descartes era um filósofo que procurava escrever de forma acessível sobre alguns dos mais centrais problemas da filosofia. Nesse clássico da filosofia ocidental são tratados problemas de metafísica, de epistemologia e até de filosofia da religião, que são algumas das mais importantes disciplinas filosóficas.

Descartes, Meditações Sobre a Filosofia Primeira (Almedina)



Esta é a biblioteca filosófica básica mais pequena que me ocorre.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Resultados dos exames


Os alunos do 11º N que fizeram o exame de Filosofia já devem ter visto os seus resultados. A média nacional dos alunos internos foi de 8,9 valores (juntando os externos, foi de 7,8). Embora alguns alunos não se sintam completamente satisfeitos, pode-se dizer que os resultados até não foram maus, pois não houve negativas na turma e a média geral foi bastante acima da média nacional. Houve até um de vós que obteve no exame uma nota (17 valores) ligeiramente melhor do que a que eu lhe atribuí no final do ano.  

Comparando a vossa média de exame com a média geral da classificação interna, verifica-se que ficaram 1,5 valores abaixo da minha avaliação: a vossa média interna foi de 14 valores e a do exame 12,5. Espero que não se tenham arrependido de terem optado por fazer o exame de Filosofia.  

Dado que a foto acima do 11º N (a minha única turma de humanidades do 11º ano) já foi algures publicada, presumo que os alunos fotografados não levantem qualquer objecção à sua inclusão aqui. Se houver, é só dizerem, que eu removo a foto. De qualquer modo, só há ali um figurão a destoar. Boas férias!


domingo, 24 de junho de 2012

Usar a cabeça

É na cabeça que, além do cérebro, estão também os olhos e os ouvidos. Olhos e ouvidos que, por sua vez, dão trabalho ao cérebro e o estimulam. Há quem diga que as férias escolares são a altura para deixar o cérebro em paz. Mas quando o cérebro é deixado em paz, são os olhos e os ouvidos que acabam por sair massacrados com todo o tipo de ruído visual e auditivo a invadir-nos sem qualquer filtro. 

Para aqueles que concordarem com o que disse atrás, deixo aqui algumas sugestões para as férias e que, em minha opinião, são bons alimentos para os olhos, os ouvidos e o cérebro. Penso que são sugestões adequadas a jovens dos 16-18 anos e respondem aos pedidos de sugestões de leitura, filmes e música que alguns alunos que fizeram.

Começo com uma sugestão que se destina simultaneamente aos olhos e ouvidos: Refiro-me ao concerto dos MozArt GROUP, um quarteto de cordas polaco mundialmente conhecido por tocar música clássica (e não só) com muito humor.  O concerto é no Teatro Tempo, aqui em Portimão, já no próximo dia 28 de Junho. Mas também irão passar pelo CCB, em Lisboa (dia seguinte) e pelo Casino da Figueira da Foz (dia 30). Aposto que mesmo quem não está habituado a ouvir música clássica irá gostar muito. Pena é que os bilhetes sejam um bocado carotes para tempos de crise (20 a 22 €).



Deixando os olhos descansar um pouco, e mudando de registo musical, sugiro Bad As Me, o último disco de Tom Waits. Não é o tipo de cantor que os adolescentes costumem ouvir, mas por isso mesmo o sugiro, pois é sempre bom alargar os horizontes musicais em vez de estar sempre a ouvir a mesma coisa.



Passando de novo para a cabeça inteira, recomendo dois filmes: um com alguns anos e outro mais recente. Estou a falar, em primeiro lugar, de Blade Runner, um filme de referência dos anos 80 do século XX, do realizador Ridley Scott, baseado num conto de ficção científica de Philip K. Dick, um dos melhores escritores do género. O segundo é Meia Noite em Paris, o último filme de Woody Allen. Este não é dos melhores filmes de Woody Allen, mas também não é dos piores. É um filme em que Woody Allen procura de forma divertida desmistificar a ideia de que a nossa época é desinteressante, quando comparada com outras épocas que habitam o imaginário de muitas pessoas cultural e artisticamente nostálgicas. Além de brincar com o lado fútil da arte e da cultura, é um filme visualmente agradável, em que a cidade de Paris surge com um encanto especial, mas discreto.



Por fim, recomendo dois livros. O primeiro é Admirável Mundo Novo, um clássico do século XX de Aldous Huxley, cuja história continua a inquietar os seus leitores. O segundo é A Vida de Pi, de Yann Martel, o jovem escritor canadiano nascido em Salamanca. Este é um premiado livro de 2001, que consegue tornar viva e credível uma incrível e emocionante aventura.


  

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Prova de exame e critérios de classificação

A prova da primeira fase do exame de Filosofia está feita. O que vos pareceu? No topo da coluna aqui ao lado faço uma pequena sondagem na qual vos convido a participar.

Quanto a mim, ainda deixa bastante a desejar, apesar de ser um pouco melhor do que os testes intermédios. Ainda assim, lá se encontra uma pergunta de escolha múltipla, a 2.3 do grupo II, em que nenhuma das opções dadas é verdadeira.

Também não se compreende como a estética e a filosofia da religião ficam de fora da prova, ao passo que se insiste no filosoficamente desinteressante tema da retórica. Aliás, o próprio programa prevê apenas 3 aulas para o tema "Argumentação e retórica", que é cerca de um terço das aulas previstas para a estética ou, em alternativa, a filosofia da religião.

De resto, encontra-se lá muito para decorar e despejar. Vá lá que o teste continha uma pergunta - a última - para os alunos argumentarem, coisa que não aconteceu nos testes intermédios.

O teste pode ser visto aqui e os critérios gerais de classificação aqui.

domingo, 10 de junho de 2012

Orientações para o exame de Filosofia

Aulas
Foto: Aires Almeida

Os alunos do 11º ano que escolheram fazer exame de Filosofia, devem ter em conta as respectivas orientações, que podem encontrar aqui.

Aproveito para desejar boa sorte na realização da prova. E bem precisam disso, pois, a avaliar pelos testes intermédios, já teriam sorte se as perguntas da prova fossem realmente sobre questões filosóficas. Esperemos que sim.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A clonagem humana é eticamente inaceitável, argumenta a Oxana



Este ensaio discute se a clonagem humana é uma prática eticamente aceitável ou não. A posição aqui defendida é que a clonagem não é moralmente admissível.
Irei abordar apenas a clonagem humana reprodutiva e não a clonagem terapêutica. Em primeiro lugar, é necessário perceber o que é a clonagem e como funciona. A clonagem é um processo que permite a criação de indivíduos geneticamente iguais, isto é, com o mesmo ADN. Ao contrário da reprodução natural, que resulta da junção do material genético de ambos progenitores (o óvulo funde-se com o espermatozóide), a clonagem é uma reprodução assexuada, ou seja, não recorre ao acto sexual, e o material genético dos descendentes é igual ao do procriador. Quando é feita para fins reprodutivos, a clonagem realiza-se por transferência nuclear, que consiste na junção do núcleo de uma célula com um ovócito enucleado. Este óvulo é depois estimulado, o que o leva a dividir-se e a desenvolver-se, transformando-se depois num embrião que pode ser transferido para o útero de uma fêmea/mulher. O indivíduo que daí surgir, será um clone, uma cópia genética do dador do núcleo.
Existem várias objecções à clonagem humana reprodutiva, tais como: o argumento das relações familiares (um clone traria mudanças a nível familiar, pois as relações familiares seriam artificiais e anómalas), o risco da instrumentalização (a clonagem humana fomenta a instrumentalização dos seres humanos que serão utilizados pelos progenitores para a concretização de objectivos que eles próprios não atingiram) e o apelo à natureza (a clonagem humana é antinatural), entre outros. Porém, estes argumentos são fáceis de descartar. Actualmente existem outros modelos de família além das tradicionais (mãe, pai e filhos), como por exemplo as famílias homossexuais, os divórcios, os segundos casamentos e as adopções, que são capazes de satisfazer as necessidades afectivas e emocionais dos seus membros e, deste modo, a família à qual pertencerá o clone não irá ser muito diferente da família convencional. O próprio conceito de natureza não é completamente claro e a fronteira entre o que é natural e o que é contranatural não foi estabelecida, já para não referir que, aceitando este argumento, teríamos de excluir também as várias formas de reprodução assistida e outras intervenções médicas. Assim, o argumento de que a clonagem é antinatural acaba por ser pouco persuasivo.
Porém existem outros argumentos que são bastante mais fortes  e que corroboram a minha posição: o argumento da identidade, o argumento da eugenia e o argumento dos custos humanos. Os defensores do argumento da identidade afirmam que a clonagem reprodutiva é eticamente errada porque implica a perda de identidade do clone e fere a sua dignidade. A objecção a este argumento é que a clonagem não iria produzir cópias iguais da mesma pessoa, apenas iria produzir indivíduos com o mesmo ADN, com o mesmo genótipo, como acontece com os gémeos idênticos. Visto que estariam enquadrados em meios diferentes, o clone e o seu dador iriam ter personalidades e mentalidades diferentes, ou seja, não seriam a mesma pessoa. Ainda assim, e de acordo com os apoiantes da clonagem, esta prática só seria permitida com o consentimento do seu dador. Ora, se o genótipo não é identidade, por que razão haveria o dador de impedir a criação de um clone seu? Se esse clone não é o dador e o dador não é o clone porque é que o dador teria de consentir que fosse clonado? Isto significa que o ADN é muito importante para a identidade de um indivíduo e, à luz desta ideia, teríamos de rever qual é afinal a identidade de um clone e de que modo isso irá influenciar o próprio clone e a sociedade.
Outro argumento que se opõe a clonagem é o argumento do perigo da eugenia. A eugenia é uma tentativa de manipular as características genéticas de um ser, seleccionando e eliminando os embriões com características indesejáveis (doenças físicas e mentais graves) e acrescentando características desejáveis (beleza, inteligência) aos mesmos, de forma a melhorá-los. A eugenia é uma ideia bastante real, já que actualmente a modificação do genoma é muito praticada, especialmente na produção de alimentos transgénicos (organismos geneticamente modificados) que aguentam melhor as pragas e têm um rápido crescimento. De acordo com os defensores deste argumento, a clonagem poderá facilitar a eugenia positiva e o seu possível uso malévolo. A preocupação geral da eugenia não é tanto a criação de exércitos de clones (o que também é um risco), é a comercialização dos próprios clones e a sua escravização. A facilidade de utilização dos clones na escravatura é possibilitada pelo facto de os clones serem cópias genéticas de pessoas já existentes, ou seja, nada, nem ninguém “daria por falta” de um clone. Actualmente existe uma grande possibilidade de um movimento eugénico ser cuidadosamente preparado, pelas grandes empresas e potências comerciais, longe dos olhos públicos. Na verdade, empresas que estão encarregadas de assegurar a clonagem humana, como a Geron e Advanced Cell Thecnology, já estão patenteadas por outras empresas internacionais, o que lhes dá o direito legal de propriedade sob os futuros clones humanos e as células humanas estaminais. A criação dos clones trará negócios bastante vantajosos para estas empresas, já que seriam também um óptimo banco de órgãos. Algumas pessoas poderão dizer que não há uma ligação necessária entre a clonagem humana e a eugenia. Contudo, essa possibilidade existe. Se nem mesmo a exploração infantil de crianças é capaz de travar as ambições económicas das potências comerciais, como podemos ter a certeza de que os clones (com as características necessárias) não serão utilizados para o mesmo propósito? A clonagem humana reprodutiva só seria possível se tivéssemos a completa certeza de que os clones humanos não iriam ser utilizados para proveito de determinadas entidades ou pessoas. Mas como no mundo actual isso ainda não está garantido, a clonagem seria eticamente errada.
Outra objecção à clonagem humana reprodutiva é o argumento dos custos humanos. Este argumento parte da premissa de que a técnica da clonagem humana reprodutiva, no seu actual estado, produz inevitavelmente muitos indivíduos defeituosos, com sérios problemas físicos e mentais. É verdade que a taxa de sucesso da clonagem é extremamente baixa, pois cerca de 95% à 98% das tentativas resultam em abortos ou malformações. A ovelha Dolly (o primeiro mamífero a ser clonado) foi a única sobrevivente das 227 tentativas de clonagem que foram feitas, para além de que morreu prematuramente com 6 anos, quando a média de vida era 12. Sendo assim, será que os eventuais benefícios da clonagem compensam a destruição de tantos embriões, fetos e possivelmente clones bebés acabados de nascer? Quem irá assumir a responsabilidade de destruição de uns e a sobrevivência de outros? E quem nos irá garantir que os clones bebés não nascerão com mutações ou doenças congénitas e que tenham uma vida tão longa como a de um ser humano? Sem respondermos com convicção a estas questões, não podemos tomar a clonagem humana reprodutiva como eticamente correta. Apesar de a clonagem poder ser uma resposta para a infertilidade, tendo em conta os custos e os riscos que este processo implica, não deve ser vista como a única alternativa. Decerto que haverá outras opções mais fiáveis.
Avaliando todos estes argumentos, compreende-se que a clonagem humana é um processo que ainda não foi desenvolvido, e é incerto, pelo que os seus riscos (sociais e étnicos) são muito elevados. A ciência realiza a experiência sem ter compreendido na totalidade o que é o ADN, como é composto, como funciona e que consequências tem, provando até ao momento a sua ineficácia. A clonagem é apenas um dos processos e será boa ou má dependendo do seu uso. Como ainda não se encontrou uma técnica de clonagem totalmente fiável e a sua taxa de sucesso é muito baixa, penso que tal prática não é eticamente aceitável.

Oxana Dimova, 11º N

Muito obrigado à Oxana pelo seu ensaio e pela autorização para o divulgar aqui.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Justiça social

Deixo aqui a apresentação sobre o problema da justiça social, que usámos nas nossas discussões nas aulas do 10º ano.

A existência de Deus

Deixo aqui a apresentação sobre o problema da existência de Deus, que usámos nas nossas discussões sobre o tema nas aulas do 10º ano.


Nota: alguns dos slides baseiam-se em exemplos adaptados do Cap. 2 do livro de James Rachels, Problemas da Filosofia (Gradiva).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Preparação para o exame nacional


Aos alunos que escolheram fazer exame nacional de Filosofia, deixo aqui uma sugestão para melhor se prepararem. Preparação para o Exame nacional 2012 - Filosofia (da Porto Editora) é um livro que está de acordo com as orientações para o exame e inclui resumos, questões, testes modelo e respectivas soluções. Os seus autores, Pedro Galvão e António Lopes,  são a melhor garantia da qualidade científica e didáctica do livro.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cientificidade

Foto de Aires Almeida

A propósito da solução de Karl Popper  para o chamado "problema da demarcação" um aluno mostrou-me um apontamento colhido não sei bem onde, no qual se dizia o seguinte:

Popper defende que uma teoria é científica se, e só se, for empiricamente falsificável.

A minha pergunta é: acham isto correcto? Será mesmo isso que Popper defende? Eu acho que isto está errado. E o leitor concorda comigo? Porquê?

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sonho dos Outros

Não sou muito dado a estas coisas de comoções públicas, mas faço aqui uma excepção, pois fiquei realmente triste ao saber da morte precoce de Bernardo Sassetti, um bom músico e pianista português de apenas 41 anos. Vi-o tocar ao vivo não há muito tempo, com mais dois outros pianistas: Pedro Burmester e Mário Laginha. Também estes são bons pianistas, mas o que melhor impressão me causou foi precisamente Sassetti: menos previsível que Laginha e mais espontâneo que Burmester. 

Sassetti morreu hoje ao cair de uma falésia, perto da Praia do Guincho, enquanto tirava fotografias, que era uma das coisas que gostava muito de fazer. 

Aqui fica um pouco da boa música composta e tocada por Sassetti. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O objecto do conhecimento

Foto: Aires Almeida

Ainda a propósito do teste intermédio do 11º ano, gostaria de pôr à consideração dos leitores a resposta de uma aluna à pergunta 1 do Grupo III.

Eis o que se pede na pergunta.

1. Leia o texto seguinte.

Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior, como erroneamente se supõe na linguagem vulgar, quando se opõe mundo «mundo objectivo» a «mundo subjectivo». Uma ideia pode ser objecto de conhecimento, como esta mesa; uma dor e um sonho podem ser, por exemplo, objectos de conhecimento, sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior. «Objectivo» diz respeito ao objecto e não implica a existência do mundo exterior.
Delfim Santos, «Da Filosofia» in Obras Completas I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982 (página não indicada)

Esclareça o sentido da frase «Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior».


A resposta da aluna foi a seguinte:

O sentido da frase «ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior» é o seguinte: nós não temos acesso, como defende David Hume, aos próprios objectos exteriores, se é que existem, mas apenas às percepções, que são impressões dos sentidos e ideias formadas a partir dessas impressões. Ora, como todas as percepções são conteúdos da nossa mente, nem sequer podemos dizer que há algo fora da mente. Logo, o autor está a dar razão a David Hume.


A cotação destinada a esta pergunta é de 20 pontos. Aos alunos pergunto se a acham uma boa resposta e porquê. Aos professores que eventualmente visitem o Questões Básicas pergunto o mesmo e mais outra coisa: como classificariam a resposta, tendo em conta os cenários de resposta e os descritores apresentados nos critérios gerais de classificação?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Escrever ensaios

Alguns alunos têm colocado dúvidas sobre a redacção de ensaios filosóficos. Para facilitar as coisas, remeto-os para este texto de Artur Polónio, que vos oferece instruções ainda mais detalhadas do que aquelas que encontram no final do 2º volume do manual do 10º ano e no caderno A Arte de Aprender a Pensar, do manual do 11º ano.

sábado, 21 de abril de 2012

Opiniões sobre o teste intermédio

Foto de Ana Filipa

Convido os leitores, em especial os alunos do 11º ano, a deixarem na caixa de comentários as suas opiniões ou impressões sobre o teste intermédio de Filosofia, realizado na passada sexta-feira. De preferência, procurem justificar minimamente as vossas opiniões recorrendo a exemplos.

Já agora, aproveito também para vos remeter para os critérios de classificação

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Teste intermédio de Filosofia



Vários alunos me têm perguntado onde podem encontrar informações sobre o teste intermédio de Filosofia - 11º ano, que se realiza já no próximo dia 20 de Abril. Não é preciso dar mais voltas, basta clicar aqui!

Bom estudo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Tempo de voltar ao estudo.

céu ralado by AiresAlmeida

céu ralado, a photo by AiresAlmeida on Flickr.
O tempo está assim, bom para voltar às aulas neste início do 3º período. Bom estudo!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Quem se atreve a gostar disto?


A Paixão Segundo São Mateus é uma obra musical (a que se dá o nome de "oratório") escrita pelo compositor alemão Johann Sebastian Bach. Nesta obra revive-se, através da música e das palavras cantadas, o sofrimento que conduziu Jesus Cristo à cruz, onde acabou por morrer pregado. Para quem é cristão, não pode, portanto, haver música mais adequada para esta altura do ano: o período de quaresma que antecede a Páscoa é precisamente a altura em que se celebra a paixão (termo de origem grega, que significa sofrimento) de Cristo. A paixão de Jesus Cristo é descrita nos quatro evangelhos, um dos quais foi escrito por Mateus. Foi, pois, aí que Bach se baseou para escrever esta obra-prima da história da música.

Diz-se, pelas razões apontadas atrás, que A Paixão Segundo São Mateus é música religiosa. Mas o que é exactamente isso de a música ser religiosa? Será mesmo correcto chamar-lhe religiosa? E será que só quem é religioso poderá apreciar esta obra musical? E, já agora, qual dos leitores que não são cristãos nem sintam qualquer impulso religioso se atreve a gostar disto?  


segunda-feira, 12 de março de 2012

Moral, para que te quero? Outra vez

Foto: Aires Almeida

A resposta referida na postagem anterior, é uma boa resposta? 

Note-se que não basta afirmar algo verdadeiro para que a resposta seja satisfatória. É também preciso que responda ao que, de facto, está em causa. Por exemplo, se alguém me perguntar qual é o atleta mais veloz do mundo e receber como resposta que Francis Obikwelu é um atleta muito veloz, não obtenho a resposta correcta, apesar de a afirmação ser verdadeira. 

Ora, passa-se algo semelhante com a resposta do aluno à pergunta sobre se haveria alguma razão para não roubar, caso ele tivesse a garantia de que ninguém iria alguma vez descobrir tal coisa. A resposta do aluno foi que, caso ninguém soubesse disso, não seria vergonha roubar. 

Em primeiro lugar, é verdade que vergonha não é roubar, mas sim roubar sem ser apanhado. Isto é assim porque o sentimento de vergonha por algo que fazemos envolve sempre a crença de que alguém sabe que fomos nós a fazê-lo. Portanto, se não acreditamos que alguém sabe disso, também não há qualquer razão para ter vergonha. O mesmo se passa, por exemplo, com o medo. Eu só posso ter medo de ser atacado se acreditar que há algo ou alguém que me pode atacar. Se acreditar mesmo que não há por perto qualquer ser que me possa atacar, então deixa de haver qualquer razão para ter medo. 

Só que o aluno ainda não está a responder à pergunta colocada, pois esta não é sobre se isso é ou não é vergonhoso, mas sobre se há ou não razões para o não fazer mesmo que tenhamos a certeza de que não seremos apanhados. Claro que podemos dizer que ele está no fundo a defender que a única razão para não roubar seria apanhar uma grande vergonha e que, visto estar livre de a apanhar, deixa de haver razão para não roubar. Logo, caso tivesse o anel de Giges colocado, não veria qualquer justificação para agir moralmente (não roubando, não mentindo, não faltando às suas promessas, etc.) No fundo, não teríamos qualquer razão para ser morais. 

Contudo, isto não é ainda satisfatório, pois podemos agora perguntar ao aluno por que razão haveria ele de sentir vergonha por ser apanhado a roubar. Por causa da censura dos outros? Mas não poderia estar-se nas tintas para o que os outros pensam disso? E, já agora, por que razão hão-de os outros achar vergonhoso roubar? Enquanto não conseguir dar uma resposta satisfatória a estas perguntas, o aluno ainda não terá conseguido defender adequadamente a sua ideia de que não há qualquer razão para sermos morais. 

Em suma, o aluno disse algo verdadeiro, mas ainda não respondeu adequadamente à pergunta. Seja qual for a resposta correcta.

Concordam?

quarta-feira, 7 de março de 2012

Moral, para que te quero?

Foto: Aires Almeida

Por que razão havemos de ser morais, se isso parece ser muitas vezes desvantajoso para nós próprios? Não é verdade que, por vezes, seria vantajoso para nós não cumprirmos as nossas promessas? Não seria muitas vezes vantajoso para nós mentir ou até roubar?

Algumas pessoas respondem que, ao contrário do que parece, nunca é vantajoso para nós roubar, mentir ou deixar de cumprir as nossas promessas. Bem vistas as coisas, dizem, nunca podemos estar seguros de que os outros não venham a descobrir isso, pelo que isso acabará, mais tarde ou mais cedo, por se voltar contra nós próprios: sermos presos, não sermos levados a sério pelas outras pessoas ou elas deixarem de se relacionar connosco.

E se tivéssemos a certeza absoluta de que as pessoas nunca iriam descobrir que roubávamos, que mentíamos e que não cumpríamos as nossas promessas? E se tivéssemos, como refere o filósofo Platão, uma espécie de anel mágico -- o anel de Giges -- que quando é colocado no dedo torna as nossas acções indetectáveis pelos outros? Poderíamos, então, fazer tudo o que fosse mais vantajoso para nós, desde roubar, mentir ou não cumprir as promessas feitas sem qualquer receio de virmos a ser descobertos. Será que, nesse caso, não teríamos qualquer razão para não roubar, não mentir e não faltar à nossa palavra? 

Fiz esta pergunta aos alunos do 10º ano numa aula. E, ao contrário do que alguns possam esperar, as respostas não foram todas no mesmo sentido -- o que não é novidade. Houve mesmo quem afirmasse seriamente que, caso tivesse a certeza absoluta que não seria apanhado, não via qualquer razão que o impedisse de roubar, de mentir e de faltar à sua palavra. A ideia é que não há qualquer razão para sermos morais, a não ser o receio de os outros levarem isso a mal e de, assim, nos complicarem a vida.

Procurando certificar-me melhor da posição do aluno, perguntei: 
-- Serias capaz de roubar algumas das pessoas que estão aqui, caso tivesses a certeza absoluta que não serias apanhado?
-- Na boa! -- esclareceu o aluno.
-- Sem qualquer problema?
-- Problema porquê, professor? Aprendi que não é vergonha roubar; vergonha é roubar e ser apanhado.
Terá o aluno razão? Se não tiver, como se lhe pode responder?

A minha resposta fica para outra postagem. Adianto apenas que a última afirmação do aluno é verdadeira, mas não tem razão. Estranho? E qual é a vossa opinião?


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Filósofos e banalidades

Foto de Aires Almeida

Eis duas afirmações que encontrei em respostas de alunos a perguntas dos testes (uma delas num teste do 10º ano e outra num teste do 11º ano):

1. A teoria filosófica do subjectivismo moral caracteriza-se por defender que há diferentes opiniões sobre o que é moralmente correcto e o que é moralmente errado. 
2. Uma das coisas que Descartes quer mostrar com o cogito é que para pensar é preciso existir.

É fácil imaginar a que perguntas se está a responder, mas não é isso que interessa agora. Prestemos antes atenção ao que se diz e pensemos se as afirmações anteriores são filosoficamente interessantes, ou sequer informativas.

Em 1 diz-se que há diferentes opiniões sobre questões morais. Mas haverá alguém que discorde disso? Qualquer pessoa sabe isso. Não precisamos de filósofos para descobrirmos tal coisa. Que há pessoas com opiniões diferentes sobre este e outros assuntos parece óbvio. Basta ouvir o que elas dizem e observar como discordam umas das outras. Assim, defender que há opiniões diferentes sobre o mesmo assunto é afirmar uma banalidade que dispensa qualquer justificação, uma vez que se trata de algo que qualquer pessoa pode observar directamente.

Em 2 diz-se que para pensar é preciso existir, e que é disso que o filósofo em causa nos quer convencer. Mas, mais uma vez, será preciso um filósofo reflectir tanto e gastar tantas das suas energias para mostrar o que, afinal, já toda a gente sabe? Claro que para pensar é preciso existir, tal como para tossir ou espirrar é preciso existir. Um filósofo que se dedique a convencer-nos de tal coisa não passaria certamente de um tolo.

Mas os filósofos não costumam ser tolos, pois não é suposto existirem para afirmar banalidades.

Se os filósofos e as teorias filosóficas servissem para nos mostrar o que já sabemos sem precisarmos sequer de filosofar, então os filósofos e as teorias filosóficas não serviriam de nada. Nesse caso, sim, aqueles que acusam os filósofos de defenderem tolices, apelidando-os de lunáticos, teriam alguma razão. Mas muitas pessoas chamam tolos e lunáticos aos filósofos precisamente porque pensam, erradamente, que eles se dedicam a dizer coisas como essas. É o que acontece quando interpretam apressadamente algumas das suas afirmações mais famosas, como «Penso, logo existo», «Só sei que nada sei» ou «O homem é a medida de todas as coisas».

Parece, então, claro que os subjectivistas morais não se caracterizam por defenderem que há diferentes opiniões sobre o que é moralmente correcto ou incorrecto. Isso é algo que tanto o subjectivista como o objectivista dão como certo. E também não é verdade que o objectivo do cogito cartesiano seja o de mostrar que para pensar é preciso existir.

Assim, o que recomendo aos alunos de filosofia quando lêem ou escrevem algo que lhes pareça uma banalidade, é que voltem atrás e pensem melhor nisso: talvez estejam a compreender mal as coisas e a tirar conclusões precipitadas. Não porque os filósofos estejam livres de dizer banalidades (por vezes, acontece encontrarmos filósofos que, por detrás de um palavreado complicado, acabam por dizer coisas que verificamos serem, afinal, banais), mas porque não é suposto os filósofos fazerem tal coisa. Aliás, se descobrirmos que um filósofo está, afinal, a dizer banalidades, esse filósofo deixa de ter interesse filosófico. Ora, é pouco provável que a maioria dos filósofos, sobretudo os que têm sido minuciosamente estudados e aqueles cujas teorias têm sido amplamente escrutinadas, como é o caso de Descartes, digam banalidades tão desinteressantes. 

Mas só verificamos que estamos perante banalidades filosoficamente desinteressantes quando estamos a pensar mesmo no que lemos, dizemos ou escrevemos. É por isso que o mais importante para um estudante de filosofia não é tanto estudar (também é, sim, também é!), mas pensar cuidadosamente nas coisas. Dá trabalho, mas correm-se menos riscos de dizer disparates. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Calendário do exame nacional de Filosofia (2012)

As provas de exame nacional de Filosofia irão ser realizadas nas seguintes datas:


20 de Junho (1ª fase)
13 de Julho (2ª fase)



Note-se que os alunos podem optar por realizar o exame de Filosofia em vez de uma das outras disciplinas da componente específica que escolheram frequentar. A prova de exame de Filosofia poderá ainda servir como prova de ingresso em mais de 190 cursos superiores de diferentes universidades.

Há ainda a novidade de todos os alunos terem de fazer as provas de exame na 1ª fase. Assim, não vão poder decidir fazer uma prova na 1ª e outra na 2ª.

Podem ver aqui informações mais detalhadas sobre a prova de exame de Filosofia.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Filosofia no Alentejo: o que é o conhecimento?

Estarei na próxima segunda-feira (dia 13 de Fevereiro) na Escola Secundária Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, para falar do problema da definição do conhecimento, a convite do grupo de Filosofia dessa escola.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os animais têm direitos?


A XIII Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes foi um sucesso, tanto pelo interesse despertado no público, que encheu o auditório, como pela qualidade da comunicação proferida pelo conferencista Pedro Galvão, da Universidade de Lisboa. Pedro Galvão, especialista em ética, é organizador de vários livros na área da ética prática (a que também se chama «ética aplicada»), entre os quais se conta precisamente Os Animais têm Direitos? Perspectivas e Argumentos (Dinalivro, 2010). Assim, a qualidade e a clareza da comunicação proferida não foi inteiramente surpreendente.

A primeira coisa a sublinhar é que se tratou de uma conferência de filosofia e não de uma sessão de campanha a favor ou contra os direitos dos animais. Assim, o conferencista procurou apresentar as principais perspectivas acerca dos direitos dos animais não humanos, fossem a favor ou contra, e os principais argumentos em que tais perspectivas se apoiam, sem deixar de fazer a sua própria avaliação crítica e fundamentada de cada uma dessas perspectivas: a perspectiva tradicional (Kant e outros), a perspectiva utilitarista clássica (Bentham, Singer e outros), a perspectiva deontologista (Tom Regan) e, finalmente, a perspectiva do utilitarismo de regras (defendida pelo próprio conferencista).

Pedro Galvão começou por fazer três advertências de carácter teórico. 

A primeira é que, ao falar de direitos, o que estava em causa não eram os direitos legais, mas os direitos morais. Trata-se de coisas muito diferentes, pois para sabermos se os animais têm, num dado país, direitos legais, e quais são esses direitos, é apenas uma questão de consultar a legislação desse país sobre a matéria. Não há aí lugar a qualquer discussão filosófica. Mas se alguém tiver, por exemplo, o direito moral à liberdade, então nem nos países onde a lei não reconhece o direito à liberdade das pessoas (nos países com regimes autoritários e ditatoriais) esse direito se extingue: mesmo que não tenham legalmente o direito à liberdade podem ter o direito moral à liberdade.

A segunda é que, ao falar de animais não humanos, não se está a pensar em todos os animais, mas apenas em alguns. A diversidade de espécies animais é tão grande e as suas características tão diferentes, que não seria correcto incluí-las todas. Assim, não se incluem animais como, por exemplo, os insectos e a maior parte dos peixes. Do que se está a falar é sobretudo de mamíferos e aves, cuja complexidade neurológica e cerebral permite afirmar, sem grandes dúvidas, que têm alguma forma de senciência (capacidade de sofrer e de ter prazer) e algum grau de consciência de si. Isto é crucial, pois o facto de serem sencientes e autoconscientes (características que se podem ter em graus diferentes), permite concluir que esses animais, ao contrário dos outros, têm interesses, nomeadamente o interesse de não sofrer.

A terceira é que a expressão «ter direitos» é ambígua, podendo ser interpretada de duas maneiras diferentes, uma num sentido mais amplo e outra num sentido mais estrito. Num sentido amplo, dizer que um indivíduo ou espécie têm direitos significa que esse indivíduo ou espécie têm estatuto moral -- que são dignos de consideração moral. Num sentido mais estrito, dizer que um indivíduo ou espécie têm direitos, significa que esse indivíduo ou espécie têm direitos deontológicos, isto é, direitos invioláveis. Sendo assim, haveria duas questões que precisavam de resposta: se, por um lado, os animais não humanos têm estatuto moral e se, por outro lado, eles têm direitos deontológicos. Quem pensar que os animais têm direitos deontológicos, aceita implicitamente que eles têm estatuto moral, mas o inverso não acontece: podemos achar que eles têm estatuto moral e não concordar que têm direitos deontológicos. Assim, defender que os animais têm direitos deontológicos é defender uma tese mais forte do que a tese de que eles têm apenas estatuto moral. Portanto, dizer que têm estatuto moral é defender que os seus interesses devem ser considerados, mas não que sejam necessariamente satisfeitos. Estas questões colocam-se também acerca dos seres humanos, pelo que é esclarecedor pensar nisso também.

Afinadas estas questões prévias e feitas as distinções conceptuais necessárias, Pedro Galvão partiu então para a caracterização e discussão de quatro das mais importantes perspectivas sobre os direitos dos animais, sem deixar de referir que há outras que mereceriam atenção.

A primeira, a que deu o nome de «tradicional», não reconhece estatuto moral aos animais não humanos. A ideia é que os animais existem com a finalidade de servir os seres humanos e de ser por eles dominados, como alegadamente refere a Bíblia, mas também Aristóteles e Tomás de Aquino, entre outros. Esta ideia, apesar de ser amplamente partilhada, não deixa de ser estranha, como sublinhou Pedro Galvão: como podem os animais estar ao serviço dos seres humanos se no longo percurso da evolução das espécies os seres humanos surgiram muitíssimo depois de milhares de outras espécies animais, muitas delas entretanto extintas? Será que, por exemplo, os dinossauros foram criados com a finalidade de servirem os seres humanos e de serem dominados por estes? Esta visão antropocêntrica tem, contudo, uma versão menos radical, defendida pelo filósofo iluminista alemão Immanuel Kant. Este filósofo afirmava que o princípio fundamental da moral se baseia na razão, a qual nos manda tratar os nossos semelhantes como fins e nunca como meios, impedindo-nos de os instrumentalizar e de, assim, ferir a sua humanidade. Tratar os nossos semelhantes, e a nós próprios, como fins equivale a respeitar a autonomia de cada ser humano, considerando que as pessoas têm direitos invioláveis. Mas não poderemos ferir a humanidade de quem não é ser humano, pelo que os outros animais nem sequer fazem parte do universo da moralidade. A não ser indirectamente: temos deveres indirectos para com os animais na medida em que maltratar um animal implica prejudicar o seu proprietário. No caso de alguém maltratar o seu próprio animal em público, então estará a ferir a susceptibilidade de outras pessoas, que serão obrigadas a assistir a cenas que lhes são desagradáveis. Mas se for o próprio dono de um animal a maltratá-lo longe de olhares alheios? Nesse caso, alega Kant, estará a fazer algo que degrada o seu próprio carácter, pelo que estará a fazer mal a si próprio, o que também não é moralmente aceitável. Assim, Kant conclui que, em geral, é errado maltratar os animais, mas daí não se segue que eles tenham estatuto moral.  

A perspectiva tradicional foi posta em causa pelo fundador do utilitarismo, o britânico Jeremy Bentham. O princípio moral fundamental dos utilitaristas é que uma acção é moralmente boa se o bem-estar for superior ao mal-estar daí resultante, de um ponto de vista imparcial. Acresce que para os utilitaristas como Bentham o bem estar (ou felicidade) consiste no prazer e na ausência de sofrimento. Bentham irá, então, argumentar que aquilo que determina se um ser tem estatuto moral não é a racionalidade, mas a senciência: o que importa não é se os animais podem raciocinar ou falar, mas se os animais podem sofrer. O que há de errado em maltratar uma pessoa ou um animal não é ele ser capaz de reflectir sobre isso ou de ser capaz de o verbalizar, mas o facto dessa pessoa ou animal sentirem dor e estarem, por isso, a sofrer -- quer esse sofrimento seja físico ou psicológico. Ora, neste particular, não há qualquer diferença entre os seres humanos e alguns animais não humanos. Assim, alguns animais têm estatuto moral do mesmíssimo modo que os seres humanos o têm e não há qualquer razão para estabelecer diferença entre uns e outros. Qualquer outra diferença seria moralmente arbitrária. Mas, dado que tudo o que conta para a moralidade é a maximização do bem-estar geral, não pode haver direitos invioláveis, pois isso iria colocar limites à maximização do bem-estar. Logo, nem sequer os seres humanos têm direitos deontológicos. Isto parece ter consequências indesejáveis, pois teríamos de considerar como moralmente aceitável matar uma pessoa saudável para lhe retirar os seus órgãos e com eles salvar a vida a meia-dúzia de pessoas que deles necessitassem, o que contribuiria para maximizar o bem-estar geral. Mas isso parece ir contra as nossas mais firmes intuições morais; parece-nos que há direitos que simplesmente não podem ser violados e que há direitos que são moralmente mais importantes do que a maximização do bem-estar geral. O problema agora passa a ser o seguinte: se os seres humanos têm direitos deontológicos, então não se percebe o que impediria os animais de os terem também. Ora, isso é um problema porque implicaria alterar radicalmente o modo como tratamos os animais, contrariando as nossas intuições de que há diferenças de estatuto moral entre seres humanos e animais.

Mas o deontologista americano Tom Regan defende precisamente que não há qualquer diferença de estatuto moral entre uns e outros, defendendo que animais e seres humanos têm direitos invioláveis. Esta foi a terceira perspectiva discutida. Regan afasta-se do deontologismo clássico de Kant porque isso implicaria negar estatuto moral a seres humanos desprovidos das suas faculdades racionais, como é o caso dos deficientes mentais profundos e de idosos que perderam as suas faculdades racionais, entre outros. Ora, se queremos incluir esses casos dentro da esfera de seres dignos de consideração moral, então o critério de atribuição de direitos não pode ser o da racionalidade. Qual é, então, esse critério? Regan responde que é o de ser sujeito de uma vida: ter uma vida com um grau razoável de unidade psicológica. Ser sujeito de uma vida não é apenas viver. Em vez de uma vida à qual se vão acrescentando momentos uns a seguir aos outros sem nada que os ligue, aquele que é sujeito de uma vida consegue ligar esses momentos numa unidade, sendo capaz de ter memórias de momentos passados, expectativas sobre o que se segue, desejos, medos, etc. Ora, isso verifica-se não só nos seres humanos, mas também em alguns animais. Assim, certos direitos, como o direito à vida, à liberdade e à integridade corporal são invioláveis, tanto no caso dos seres humanos como no caso de alguns animais. Deve-se, pois, acabar imediatamente com a criação e abate de aves e mamíferos na indústria alimentar, com as touradas, os circos com animais, os jardins zoológicos, as gaiolas, as corridas de cães, etc. Pedro Galvão considerou esta perspectiva demasiado radical. Seria, de resto, interessante discutir se, de acordo com Regan, as pessoas que padecem da doença de Alzheimer em estado avançado são realmente sujeitos de uma vida e, portanto, se serão dignos de consideração moral.


A última perspectiva foi a defendida pelo próprio conferencista. Trata-se de uma perspectiva utilitarista, mas diferente do utilitarismo clássico, que tem em conta as consequências de cada acto isoladamente. Ao invés, o que conta nesta perspectiva utilitarista são as consequências que resultam da adopção de diferentes códigos morais, isto é, de diferentes sistemas de regras morais. Pedro Galvão pensa que os seres humanos têm direitos deontológicos, mas não os animais. Mas também defende que alguns animais têm estatuto moral, afastando-se assim das três perspectivas anteriores. 

Não vou adiantar aqui mais pormenores, que Pedro Galvão sumariou na sua conferência. Em vez disso, fica aqui a sugestão de lerem o que Pedro Galvão vai publicando sobre o assunto. Vale mesmo a pena.