quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Uma sugestão para o novo ano: ler bons livros



Não encontrei melhor do que estas palavras do filósofo inglês A. C. Grayling para justificar a minha sugestão:

A melhor coisa que qualquer tipo de ensino pode legar são os hábitos de reflexão e questionamento. A leitura pode ser uma actividade passiva, um entretenimento que não deixará marcas no espírito, para além de uma agradável distracção momentânea. Há muitos livros que são habilmente escritos de forma a não exigir mais, e nada errado há quanto a isso. Mas, para se obter algo mais, ler tem de constituir uma actividade, e não uma passividade. É difícil definir o que torna bons os livros bons, pois estes são muito diferentes entre si, mas uma coisa que é comum à sua maioria é fazer as pessoas pensar e sentir, elevando-as ou perturbando-as, e levando-as a ver o mundo de uma forma um pouco diferente, em resultado disso. Em suma, estimulam a actividade, na leitura activa. «Pouco mais encontramos num livro do que aquilo que lá pomos. Mas nos grandes livros o espírito encontra espaço para pôr muitas coisas», disse Joseph Joubert.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Os ateus e o Natal


Volta e meia lemos notícias de protestos contra a existência de crucifixos em salas de aula de algumas escolas públicas. Argumenta-se que o estado, de que todos fazemos parte, é laico e não deve privilegiar qualquer confissão religiosa. Até porque a escola é de todos, sejam católicos, islâmicos, hinduístas, budistas, judeus ou ateus e, tal como não faz sentido colocar nas paredes de escolas públicas símbolos do Benfica ou do Sporting, do comunismo, do fascismo ou do socialismo, também não faz sentido manter símbolos desta ou daquela religião, ainda que seja praticada pela maioria dos portugueses.

Mas, nesse caso, respondem algumas pessoas, temos de alterar os nomes de todas as vilas e cidades que têm nomes de santos, além dos nomes de hospitais públicos, já sem falar dos nomes de tantas ruas por todo o país. E que dizer, acrescentam ainda, dos feriados religiosos e das férias escolares da Páscoa e do Natal? Também deviam essas festas acabar, para que os cidadãos de outras confissões religiosas e os ateus não se sintam incomodados?

Esta discussão levou-me a pensar numa questão que considero filosoficamente ainda mais interessante e que é a seguinte: estarão os ateus a ser incoerentes ao festejarem o Natal, que é uma festa de origem religiosa? Será coerente exigir a remoção dos crucifixos das escolas públicas e, ao mesmo tempo, envolver-se na celebração do Natal, montar a árvore de Natal em casa, desejar um feliz Natal aos amigos e conhecidos e fazer questão de passar o Natal em família?

O que me dizem de tudo isto?

Na foto vê-se Richard Dawkins, um biólogo famoso pelos seus livros de divulgação científica e, mais recentemente, pela sua defesa do ateísmo militante. 

domingo, 20 de dezembro de 2009

argumentos de carácter emocional


Na ultima aula de filosofia, o Prof. Aires chamou-me a atenção para o uso de argumentos de carácter emocional, no post do vegetarianismo, porque os nossos argumentos devem ser sempre racionais, caso contrário não são 100% filosóficos dado que a base da filosofia é a razão. Eu concordei com ele, se não fosse a razão o nosso guia filosófico, então muito provavelmente perdiamo-nos muitas vezes. Mas não sei porquê, naquele dia pus-me a pensar e cheguei à conclusão de que afinal, na minha opinião, claro está, a maioria, se não todos os argumentos têm uma base emocional, mesmo aqueles que parecem mesmo frios e desprovidos de algo mais que a razão. Ora vejamos, nós argumentamos para tentarmos convencer os outros de que estamos certos, e assim se conseguir chegar a uma verdade na discussão filosófica. Porém, por detrás daquilo que argumentamos costuma estar um desejo ou um medo, que são emoções. Por exemplo, no post do vegetarianismo, o Sérgio argumentava, porque na verdade gostava de comer carne e queria continuar a comê-la sem se sentir mal e a Lúcia argumentava porque tinha uma empatia pelos animais que não a deixava comer carne e que a faria achar que ninguém devia. Hittler argumentava contra os judeus, pois eles dominavam a economia e ele desejava que fossem os arianos, estando com medo de ser controlado por alguém que não fosse da sua raça, e os que defendiam os judeus (em segredo) tinham medo de todas as mortes e/ou empatia por eles, os moralistas defendem "mentir é errado" mas na verdade o que estão a dizer é "abaixo o mentir!" e defendem também que "dizer a verdade é correcto" mas não quererão dizer "viva a dizer a verdade!"? Quando a frase se torna exclamativa, revela emoções.

Sendo assim, como podemos excluir as nossas emoções dos nossos argumentos?

Digam-me, isto faz algum sentido, ou há alguma coisa que não esteja a ver bem?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Filosofia para o Natal



Para quem costuma oferecer livros no Natal (ou para quem gosta de os receber), aqui ficam duas boas sugestões. São muito acessíveis e interessantes.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Vegetarianismo

À hora do lanche, no intervalo:

Sérgio: Queres um bocado da minha sandes de fiambre?
Lúcia: Não, obrigada mas sou vegetariana, não como carne.
Sérgio: A sério?! Mas porquê? A carne é tão boa!
Lúcia: Sim, de facto sabe bem, mas na minha opinião os animais também têem direitos, e eu sou vegetariana para os respeitar.
Sérgio: Como assim?
Lúcia: Em primeiro lugar, penso que os animais têem direito à liberdade, e hoje em dia são presos em prisões minusculas desde que nascem, só para serem mortos depois.
Sérgio: Sim, Mas esses animais (as galinhas, os porcos, etc) já não existem em meio natural, e se são criados por nós, também podem ser mortos por nós.
Lúcia: Oh Sérgio, primeiro não te faças de Deus, não foste tu que lhes deste a vida, logo também não tens o direito de a tirar! E segundo, põe-te no lugar deles! E se te separasses da tua mãe assim que deixasses de mamar e fosses metido num quarto minusculo com mais 10 pessoas a vida toda até estares crescido o suficiente para te matarem?
Sérgio: pois, mas eu não sou um animal e, para além disso tenho sentimentos.
Lúcia: E os animais não têem? se bateres num cão ele fica com medo e, se gostar de ti até fica muito triste e começa a ganir, a pedir-te festas!
Mas mesmo que isso fosse verdade, os animais têem direito à vida, tal como nós que, a proposito, também somos animais.
Sérgio: Os animais têem direito à vida, mas eles no meio natural também se comem uns aos outros!
Lúcia: Então, mas isso é a cadeia alimentar.
Sérgio: Então, mas nós comermos porcos também faz parte da cadeia alimentar.
Lúcia: Não, porque se reparares, o teu corpo tem indicios de que há muitos milhares de anos, os humanos não comiam carne, como por exemplo, o teu apendice, os teus dentes, o comprimento do teu intestino, etc.
Sérgio: Hmmm, tenho que pesquisar melhor isso... Mas mesmo assim, se agora comemos carne é porque houve alguma evolução.
Lúcia: Ainda assim, se podes sobreviver bem sem matares animais, não é um crime fazê-lo?
Sérgio: Então, mas se não matas animais, matas plantas, vai dar ao mesmo.
Lúcia: Não, não vai, porque os animais sofrem e as plantas não, porquê não têem nervos nem sistema nervoso e por isso não sentem a dor.
Sérgio: Bem, não sou grande entendido nisso e não sei o suficiente sobre este assunto para saber se estás certa ou não, mas eu cá não consigo passar sem esta minha sandes de fiambre.

E tu? Qual é a tua opinião? Álgum deles está certo? E terão realmente os animais direitos ou sentimentos?
Lanço ainda o desafio de tentarem convencer-me a desistir do vegetarianismo :)

sábado, 12 de dezembro de 2009

As mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos?




Juíz - Outra vez por cá, senhor Abílio? Está a tornar-se um frequentador assíduo deste tribunal. Parece que voltou a agredir outra pessoa.
Abílio - Sim, é verdade. Não pude evitar. Que hei-de eu fazer?
Juíz - Não pôde evitar? Como assim? Olhe que há muita gente que nunca agrediu seja quem for. Portanto, não me venha dizer que não pôde evitar.
Abílio - Pois, mas até o senhor fazia o mesmo, se estivesse no meu lugar.
Juíz - Diga lá, então, o que aconteceu.
Abílio - Esmurrei uma pessoa que me insultou, dizendo que eu era um bufo, pelo que tive de defender a minha honra.
Juíz - Mas não era caso para a esmurrar. Há muitas pessoas que, no seu lugar, não o fariam. Eu nunca o faria, por exemplo.
Abílio - É porque não se consegue colocar mesmo no meu lugar.
Juíz - É claro que consigo. E nunca procederia assim.
Abílio - Não, não, colocar-se no meu lugar não é só passar por uma situação semelhante, mas também pensar como eu, ter tido a mesma educação que eu, a mesma cultura, as mesmas vivências e até as mesmas características genéticas que eu.
Juíz - Explique lá isso.
Abílio - É fácil, fui educado a reagir sempre que me insultam. Além disso, no mundo em que fui criado, «bufo» é a pior coisa que se pode chamar a uma pessoa. Nesse caso, temos de defender a nossa honra, caso contrário somos mal vistos e considerados cobardes pelos nossos amigos. A violência sempre fez parte da minha vida, de maneira que passei a encarar isso como algo normal e aceitável, até porque sou, por natureza, agressivo e nervoso. Herdei essa agressividade do meu pai e não tenho culpa disso. Portanto, pôr-se no meu lugar é pôr-se na minha cabeça, olhar para as coisas com os meus olhos e sentir as coisas como eu as sinto. Não tenho culpa de pensar como penso, de sentir como sinto e de ser como sou.
Juíz - Ora, ora, não me diga que não tinha opção!
Abílio - Dada a maneira como fui educado, o mundo a que pertenço, as experiências por que passei e a minha própria natureza, não podia ter feito outra coisa. Se o senhor doutor juíz fosse exactamente a mesma pessoa que eu, faria exactamente a mesma coisa.
Juíz - Salvo seja!
Abílio - Pois, lá está! Não consegue pôr-se exactamente no meu lugar. Nas mesmas circunstâncias, o efeito seria o mesmo. Portanto, dadas essas circunstâncias, não tive realmente opção.
Juíz - Não me venha com coisas! O senhor fez aquilo que quis fazer.
Abílio - Claro que fiz o que queria fazer. Mas a verdade é que algo que eu não controlo me levou a querer fazer isso.


O que nos diz o diálogo anterior sobre o determinismo radical? Será que não somos realmente livres?


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fazemos mesmo o que queremos?

Todos os anos por altura do Natal é a mesma coisa e todos os anos penso que no próximo vai ser diferente. Não quero voltar a perder horas entre multidões que se acotovelam nas lojas a comprar inutilidades. E para quê?

São prendas para os meus pais, para os amigos e as crianças dos amigos, para os vizinhos e as crianças dos vizinhos, para os tios e os primos mais chegados, para a namorada, para os avós e ainda os outros de que agora me lembro - há sempre alguém que se esquece e que nos leva à última hora a correr aos centros comerciais à procura sabe-se lá bem do quê. Tudo isto sem contar com o dinheiro que se gasta e o cansaço que se apanha.

Não, estou farto! Este ano vai ser diferente e não vou mais alinhar nestes rituais consumistas sem sentido. Afinal, por que hei-de eu fazer o que não quero? Só porque é costume e os outros também o fazem? Mas não sou um carneiro para fazer algo só porque os outros o fazem também. Parece mal? Quero lá saber disso! As pessoas que levarem a mal é porque, afinal, não interessam mesmo.

É isso, este ano não ofereço prendas no Natal e é isso vou dizer aos meus pais, avós, irmãos, namorada, amigos, vizinhos e colegas mais chegados. Que alívio!

Bom, pensando bem, à minha namorada tenho mesmo de oferecer qualquer coisa (aliás, qualquer coisa não pode ser, pois ela é bem esquisita). Ela de certeza que iria atirar-me isso à cara um dia, até porque me anda sempre a falar daquele perfume de que gosta mesmo muito. Coitada, até merece e é bem capaz de estar à espera disso. Não, não a vou decepcionar.

Ah, é verdade, a minha prima Aurélia de certeza que me vai oferecer uma boa prenda, como de costume. Eu bem lhe digo que não vale a pena, mas ela gosta mesmo destas coisas. Se calhar não ia entender se eu não lhe oferecesse algo, por muito simples que seja. Ok, ofereço-lhe o último disco da Shakira, que ela gosta muito, e pronto. Nesse caso, tenho também de dar algo aos meus avós, coitados. Mas isso é fácil, dou-lhes um par de meias ou algo parecido, pois contentam-se com pouco. Para eles, que estão habituados a isso, o que importa é apenas o gesto.

Sendo assim, os meus pais são capazes de ficar tristes se virem que ofereço algo aos outros e não penso neles, mesmo que não mo digam. Tenho de lhes oferecer alguma coisa também. Mas a mais ninguém... a não ser às crianças do vizinho. Esses é que não vão mesmo entender se não lhes der um brinquedo qualquer, até porque eles vão dar-me alguma coisa (comprada pelos pais, claro). Além disso, o vizinho é muito simpático e dá importância a estas coisas. E o meu tio Tobias, que tem a mania de oferecer coisas caras? No ano passado deu-me ipod bem fixe. Bom, esse é que não posso mesmo deixar de mãos a abanar. E já me estava a esquecer da ...

Espera aí! Lá volta, contra a minha vontade, tudo outra vez ao mesmo. Mas será que não consigo fazer o que quero? Afinal quem manda em mim? Será que sou mesmo livre de fazer o que bem entender? Todos os anos digo a mesma coisa e todos os anos acabo por fazer o mesmo. Mas porquê? No fundo é porque não sou mesmo capaz de me estar nas tintas para o que os outros pensam. Que hei-de fazer? Não tenho culpa de ser assim (ou, talvez, de me terem feito assim). No fundo, isto de termos controlo sobre as nossas acções é uma ilusão. Acabamos sempre por fazer o que se espera que façamos.

O que me dizem disto tudo?