sábado, 12 de agosto de 2017

Santos e autores


Quem é o autor da Suma Teológica?
Resposta: Tomás de Aquino.

E o autor de A Cidade de Deus?
Resposta: Agostinho de Hipona.

E o autor de Proslogion?
Resposta: Anselmo de Cantuária.

Se é assim, por que razão, em vez desses nomes, se encontra nas capas de algumas traduções portuguesas de tais livros os nomes São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Santo Anselmo? É por a Igreja Católica assim ter decidido?

Mas isso não colhe. Primeiro, porque quem escreveu tais obras foram mesmo Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona e Anselmo de Cantuária, que não eram santos, dado só muito mais tarde terem sido canonizados. Depois, porque a santidade é oficialmente reconhecida apenas pela Igreja Católica e seus seguidores, não constituindo ela um elemento objectivo da identificação do autor. Finalmente, porque não há outros autores com os mesmos nomes, pelo que acrescentar-lhes o título de santidade em nada contribui para uma identificação mais precisa.

Em suma, o mais correto é identificar os autores dessas obras usando os nomes pelos quais respondiam quando as escreveram e deixar os santos apenas para os católicos, se assim o desejarem. Mas, numa edição filosófica da Suma Teológica, parece-me uma falta de cuidado e de rigor histórico identificar o autor como São Tomás de Aquino. De resto, nem é claro que ser santo faça sequer parte da sua biografia.

O autor da Suma Teológica é, pois, Tomás de Aquino e do Proslogion é Anselmo de Cantuária. Em nome do rigor histórico, que todos os académicos deviam prezar, é o que devia estar nas capas dos seus livros.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Tu és o repouso

O poema Du bist die Ruh é de Friedrich Rückert, a música de Franz Schubert, a interpretação do precocemente falecido contralto britânico Kathleen Ferrier. E o comentário, no seu devido contexto,  é do filósofo, e também compositor, Roger Scruton. Foi retirado do seu último livro sobre a natureza humana, em breve disponível em tradução portuguesa.

«Quero-te» não é uma figura de estilo, mas a expressão verdadeira do que sinto. E aqui os pronomes identificam o centro exacto da escolha livre e responsável que constitui a realidade interpessoal de cada um de nós. Quero-te como ser livre que és, e a tua liberdade está encerrada na coisa que eu quero, a coisa que tu identificas na primeira pessoa quando falas comigo de eu para eu. E isso é porque eu quero que me queiras da mesma forma, e dessa forma queiras que eu te queira, numa correspondência crescente de desejo. Na cultura popular, as canções de amor são, por conseguinte, elaborações do pronome da segunda pessoa: «Tudo aquilo que tu és»; «Tenho-te sob a minha pele», e por aí fora. E na poesia lírica a segunda pessoa torna-se uma invocação, usando a forma familiar, como neste famoso poema de Rückert: 
Du bist die Ruh,
Der Friede mild,
Die Sehnsucht du
Und was sie stillt. 

Tu és o repouso,
A agradável paz,
O anseio és
E quem o aquieta. 
Vale a pena recordar a quietude inefável conferida a estas reflexões por Schubert, a forma inteligente de condensar uma coisa abstracta por que se anseia (calma, paz), e mesmo a própria ânsia, no pronome concreto que encerra as abstracções e constrói paredes à sua volta. Aqui, tu é o eu transcendente do outro, não descritível mas alvo da minha ânsia.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Exames: e se fosse como na França?


Dez dias antes do exame, um jovem interceptou dados sobre 20 dos temas da prova de Física e Química, tendo sido vários os alunos que beneficiaram dessa informação durante a sua realização, no dia 7 de Junho de 2017. O Ministério da Educação abriu um inquérito para apurar responsabilidades, mas decidiu não repetir o exame com o argumento de que estavam apenas 4 pontos em jogo.

No dia 14 de Junho, o Ministério da Educação descobriu que tinha havido uma fuga de informação sobre um dos três temas do exame de Filosofia (dos cursos tecnológicos), a realizar no dia seguinte. O ministério decidiu, na tarde anterior ao dia da realização do teste, recorrer a um tema de reserva. Contudo, levou bastante tempo para imprimir 140 mil exemplares e os distribuír pelas escolas de todo o país, pelo que milhares de alunos receberam o tema de reserva cerca de uma hora após o início da prova.

Cerca de 18 mil alunos tiveram de repetir no dia 23 de Junho a prova de Espanhol, já realizada no dia 19 do mesmo mês, dado que a primeira delas incluía um capítulo que tinha saído na prova de 2016. O ministro da educação mandou fazer mais um inquérito.

Os alunos de uma das cidades do sul do país terão de repetir a prova de língua estrangeira, uma vez que a escola foi evacuada no dia 19 de Junho, enquanto a prova decorria, por ter soado o alarme de incêndio. Houve, de facto, incêndio nas proximidades, mas não atingiu a escola.

Durante a distribuição das provas pelas escolas, uma parte da prova de Economia-Direito, seguiu inadvertidamente misturada com a prova de outra disciplina para uma escola do leste do país. Essa parte foi recolhida imediatamente após os alunos a terem recebido, mas alguns já tinham visto de que se tratava. A informação circulou rapidamente pelas redes sociais e muitos alunos que iriam fazer a prova de Economia-Direito no dia seguinte aproveitaram-se disso. O Ministério da Educação decidiu não recorrer aos temas de reserva por falta de tempo para a sua impressão. Entretanto, devido à polémica instaurada, acabou por anular esse tema.

Isto aconteceu nas últimas semanas. Sabe onde? Na França! Não acredita? Leia aqui.

Como seria se isto sucedesse em Portugal? E, já agora, o que vos parece o exame de Filosofia (baccalauréat general, série S)? Podem ver aqui. O modelo de prova — que tem gerado alguma contestação em França, mesmo da parte de professores de Filosofia — tem três temas e o aluno responde apenas a um. Eis os temas:

Tema 1: "Defender os seus direitos é defender os seus interesses?"
Tema 2: "Pode alguém libertar-se da sua cultura?"
Tema 3: "Explicar o texto seguinte: (Segue-se um texto de 18 linhas, de Foucault)".

sábado, 24 de junho de 2017

A democracia não nos enobrece

Quem o diz é o filósofo político Jason Brennan no seu mais recente livro, de 2016, precisamente intitulado Contra a Democracia, e agora disponível em tradução portuguesa, na qual tive o gosto de estar envolvido.

Quem entende a filosofia da forma como os grandes filósofos a entenderam sabe que nada é indiscutível. E a democracia também não o é. No caso da democracia diria mesmo que, quanto menos discutida, menos democracia haverá.

Neste estimulante livro de Jason Brennan, o leitor não irá encontrar qualquer projecto político sub-reptício nem tiradas ideológicas impressionantes. Em vez disso, será antes confrontado com  argumentos de carácter moral, cujas premissas são cuidadosamente explicitadas, como seria de esperar de um filósofo respeitável. Cabe ao leitor avaliar se tais argumentos colhem.

Pode haver boas razões para se discordar de Brennan, mas quem o ler verá que não é assim tão fácil encontrá-las. E ele até se esforça por nos ajudar nessa procura.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Compilações

Conheço vários coleccionadores de discos que têm as suas discotecas pessoais recheadas de compilações. Por vezes, têm as mesmas músicas dispersas por vários discos dos mesmos artistas. Conheço também pessoas que não estão para gastar muito dinheiro em discos e que, para pouparem, compram apenas compilações. E há ainda quem, como eu, não seja adepto de compilações. Mas também não é preciso exagerar, pois há casos em que valem mesmo a pena. Destaco aqui alguns desses casos.

Antes disso, talvez seja útil ter em conta que há três tipos principais de compilações: os Greatest Hits, os The Best Of e as retrospectivas. Do primeiro tipo são, como o nome indica, as colecções das músicas mais populares (mais vendidas) de um dado artista, durante um certo período, que pode ser toda a sua carreira; do segundo tipo, fazem parte as colecções das melhores músicas, sejam ou não as que mais sucesso tiveram; no terceiro tipo, encontramos a colecção das músicas mais representativas das várias fases criativas do artista, independentemente de serem as mais vendidas ou até a melhores. Em minha opinião, raramente os Greatest Hits valem a pena, pois não é invulgar as músicas com mais sucesso de um artista serem também as menos interessantes. Claro que a qualidade dos The Best Of também depende de quem faz a selecção (há casos em que são os próprios artistas e outros em que são as editoras). Por sua vez, as retrospectivas têm um interesse mais documental, chegando a incluir músicas que não fazem parte de discos anteriores e versões diferentes das originais.

Aqui fica uma meia-dúzia das melhores compilações que conheço.

DEEP PURPLE, Mark I & II (1973)


Os Deep Purple são frequentemente subestimados e compreende-se porquê: a partir de certa altura passaram a macaquear-se a si próprios e a esbanjar a boa reputação adquirida nos seus melhores tempos. De tal modo que quase tudo o que fizeram a partir de 1974 é para esquecer. Mas para quem quer ouvir o melhor da melhor fase dos DP não precisa de mais do que a excelente compilação Mark I & II, um duplo álbum que penso ter sido editado só em vinil. O título da compilação Mark I & II refere as duas primeiras formações dos DP (havendo ainda as formações posteriores, conhecidas como Mark III e Mark IV).

O primeiro disco contém apenas músicas do período conhecido como Mark I (o vocalista desta primeira formação era Rod Evans), e o segundo disco inteiramente dedicado ao mais inspirado período dos DP, o Mark II, já com a belíssima e poderosa voz de Ian Gillan. Uma curiosidade: no início dos anos 70 do século passado, o genial compositor russo Chostakovich assistiu em Londres à ópera-rock Jesus Christ Superstar e disse ter ficado simplesmente encantado, a ponto de acrescentar que gostaria de ter composto algo nessa linha. A personagem de Jesus era interpretada precisamente por Ian Gillan.

Foi do período Mark II que saíram as mais brilhantes canções dos DP e que os impuseram como um dos principais fundadores do chamado hard rock. Trata-se de um hard rock progressivo, com um toque sinfónico dado sobretudo pelo inconfundível organista Jon Lord. Mas todos os membros desta formação eram músicos fantásticos. Os DP desta fase chegaram mesmo a gravar um álbum ao vivo com a Royal Philharmonic Orchestra, dirigida pelo compositor e maestro Malcolm Arnold.

O disco 2 desta compilação inclui algumas das melhores músicas deste período, sem esquecer a bela balada When a Blind Man Cries, originalmente editada como single (lado B), e a versão ao vivo de Highway Star, que é bem melhor do que versão original de estúdio. O disco 1 é totalmente dedicado a Mark I, onde encontramos preciosidades como Hush, mas também interessantes versões de canções alheias como Help dos Beatles ou Hey Joe, mais conhecida pela voz de Hendrix.

Em suma, neste duplo álbum está quase tudo o que interessa dos DP. Só não se compreende como um disco com boa música tem uma capa tão má. Dificilmente se consegue imaginar pior.


LEONARD COHEN, The Best Of (1975)


Esta colectânea de 1975 inclui apenas canções dos quatro primeiros discos de originais de Leonard Cohen: Songs of Leonard Cohen (1967), Songs From a Room (1969), Songs of Love and Hate (1971) e New Skin For the Old Ceremony (1974). Mas são, em minha opinião, também os quatro melhores discos de Cohen. E o melhor de tudo é que esta colectânea reune mesmo o melhor dos quatro, fazendo dele um disco irresistível, onde não há uma única canção dispensável: Bird on The Wire, Sisters of Mercy, Hey, That's No Way to Say Goodbye, Suzanne, So Long, Marianne, Famous Blue Raincoat ou Who By Fire. É talvez a melhor colectânea que conheço. Um disco perfeito. E mais uma capa fraquinha.


LOU REED, A Walk on the Wild Side: The Best of Lou Reed (1977)


O que não falta são compilações de Lou Reed. Em geral, as compilações mais tardias acabam por deixar de fora algumas das melhores canções de Reed para poderem entrar outras mais recentes, mas também mais banais. Mas esta compilação abrange apenas o que considero ser o período mais criativo de Reed. E há ainda o cuidado de não optar pelo mais fácil, dispensando acertadamente canções tão óbvias como Perfect Day. Digna de registo é também a qualidade do som (só conheço o disco em vinil). 


THE SMITHS, Hatful of Hollow (1984)


Este disco quase poderia contar como um álbum de originais. Por estranho que possa parecer, saiu pouco depois do primeiro disco de The Smiths. Contudo, o grupo liderado pela dupla Morrissey e Marr (a propósito, Marr diz ser um ávido leitor de filosofia, sobretudo de filosofia da religião) tinha o hábito de regravar as suas músicas com diferentes arranjos e sonoridades, de que resultavam canções quase novas, nalguns casos melhores do que as versões originais. Além disso, esta compilação inclui ainda singles que não fazem parte de qualquer outro álbum. Isto porque The Smiths raramente encaravam  os singles como estratégia de promoção de álbuns mas antes como criações autónomas. Por isso se encontram aqui grandes canções como How Soon is Now, que está ausente de qualquer dos seus discos de originais.


JOY DIVISION, Substance (1988)


Os Joy Division só gravaram dois (e que dois!) álbuns de originais. Mas ainda antes do seu primeiro álbum, quando eram um grupo seguido apenas em Manchester e pouco mais, já tinham gravado vários singles de circulação bastante restrita. Esta compilação, organizada pelos três ex-membros dos Joy Division, é uma verdadeira retrospectiva do grupo de Ian Curtis, pois inclui material representativo de toda a sua história, desde os primeiros anos. Integra mais de meia-dúzia de canções dos Joy Division que não fazem parte dos seus dois álbuns Unknown Pleasures e Closer, entre as quais a marcante Love Will Tear Us Apart.


FRANK ZAPPA, Strictly Commercial: The Best of Frank Zappa (1995)


A discografia de Zappa é, como se sabe, tão grande quanto variada. E a sua música é tudo menos comercial. Muitas das suas melhores criações são totalmente instrumentais, com frequentes incursões pelo jazz e pela música experimental. Não se vê como uma compilação poderia dar conta de tudo isso. Mas também não é isso que esta compilação procura fazer, limitando-se a abrir as portas do universo musical de Zappa pelo lado mais acessível. Neste caso, isso é muito bem conseguido, graças à excelente selecção de canções. Entre elas contam-se Peaches En Regalia, Dirty Love, Joe's Garage, Montana e o popular Bobby Brown Goes Down (esta apenas na edição europeia). É o Zappa ideal para quem gosta de Zappa mas não aguenta demasiado Zappa.

sábado, 20 de maio de 2017

A música tem de transmitir sentimentos?

Estava à espera de tudo menos de filosofia no Festival da Eurovisão. Mas foi isso mesmo que, além de nos brindar com a melhor canção a concurso, o talentoso representante de Portugal nos trouxe.

Antes de falar da filosofia, deixo uma palavra sobre a canção e o concurso.


Ao contrário da generalidade das pessoas de bom gosto e com coisas mais importantes para fazer, eu vi o Festival na televisão, da primeira à última canção. Não assistia ao Festival da Eurovisão há décadas e nem sequer tinha a ideia de que havia eliminatórias e tantos países a participar, incluindo países de fora da Europa, como a Austrália. Mas a ideia com que fiquei é que, salvo o aparato tecnológico, a natural adaptação das canções às tendências da época e a predominância do inglês, está tudo mais ou menos na mesma. No meio de tudo isto, continua a destacar-se a fraca qualidade das canções, como era costume nos tempos em que, algo resignado, lá ia acompanhando a coisa.

O facto de ter ficado algo surpreendido com a canção que este ano Portugal escolheu despertou-me a curiosidade sobre o que poderia vir a acontecer no grande palco europeu. Da primeira vez que a ouvi pareceu-me demasiado familiar, como se já a conhecesse há muito. Mas, quando tentava precisar de onde a conhecia, nada de concreto me ocorria. De algum musical antigo? Podia ser, mas não descortinei exactamente qual. De algum filme dos anos 50? Talvez, mas também não consegui identificar. Seria uma adaptação de alguma canção de jazz antiga, ou talvez de bossanova? Também não consegui ver qual, até porque Amar Pelos Dois tem o ritmo de uma valsa. Os acordes do piano pareciam tirados do início de Gymnopédie N.º 1, de Erik Satie. Mas não era bem a mesma coisa. Começou a parecer-me um pouco disso tudo e nada disso em particular, fazendo-me pensar que talvez se tratasse de uma espécie de ovo de Colombo musical, capaz de deixar os festivaleiros surpreendidos. Até porque a canção é agradável logo à primeira audição e tem a capacidade de, sem ser excepcional, soar ainda mais agradável nas audições seguintes.

Creio mesmo que o aspecto mais forte da canção é precisamente soar a algo familiar; a algo que já conhecemos sem sabermos bem de onde, como se a autora a encontrasse algures por aí à espera de ser cantada e ouvida. Isso significa que a canção pouco traz de novo. Mas traz, em contrapartida, algo que quase soa a vintage, o que é bom. Essa é, muitas vezes, a marca de grandes sucessos intemporais. Como, por exemplo, Yesterday, dos Beatles, a canção com mais versões gravadas de toda a história da música. O próprio autor, Paul McCartney, conta que a canção lhe pareceu tão familiar, que nem sequer se deu conta que a estava a compor quando pegou na guitarra — diz a lenda que numa paragem para os quatro de Liverpool se refrescarem e esticarem as pernas a meio de uma viagem de automóvel na velha estrada de Lisboa para o Algarve, onde iam passar umas férias — para tocar simplesmente algo que lhe estava no ouvido. Diz McCartney que andou uns tempos a pensar de quem seria a canção e que, depois de verificar que não a conseguia atribuir a ninguém, assumiu ele próprio a autoria. E, apesar disso, Yesterday é um clássico, mesmo que pouco ou nada tenha de inovador. Está certamente entre as canções menos arrojadas que os Beatles escreveram.

Não se trata de equiparar Amar Pelos Dois a Yesterday, o que seria ridículo. Mas, sem dúvida que Amar Pelos Dois é uma canção bonita, aparentemente simples e despretensiosa. Ora, se combinarmos o facto de a canção soar muito familiar e de, ao mesmo tempo, ser algo atípica no contexto do Festival da Eurovisão, não seria difícil acreditarmos que teria uma grande probabilidade de vencer a Eurovisão. O cenário previsível seria as outras canções todas competirem entre si e a portuguesa competir com elas em bloco: no grupo das canções festivaleiras haveria uma grande dispersão de votos e uma grande concentração de votos na portuguesa da parte dos que desejassem uma coisa diferente. E assim veio a acontecer, ficando Salvador Sobral com o troféu. 

Claro que houve também a fraca qualidade das canções concorrentes, com excepção da interessante, embora ligeiramente monótona, canção pop da Bélgica. E houve ainda a própria figura descontraída de outsider do Salvador, a que se juntou a simpatia e inteligência da sua irmã que, apesar de tudo, não conseguiu impedir o irmão de interpretar a canção com um ou dois tiques vocais despropositados, de que a canção não precisa. Fora isso, Salvador é, sem dúvida, um bom cantor e intérprete. 

Já agora, não é arriscado dizer que Amar Pelos Dois foi a melhor canção que alguma vez Portugal mostrou no Festival da Eurovisão — e provavelmente uma das melhores que já venceram a Eurovisão —, a uma grande distância das participações portuguesas dos anos 1960-1980. Quem se der ao trabalho de perder tempo a ouvir canções como a pobre e beata Oração (a primeira participação de Portugal, com uma letra de sacristia), ou a agitada Desfolhada (em que Simone de Oliveira canta como quem ralha com o ouvinte), ou a enfadonha Flor de Verde Pinho (na voz semi-falada e desbotada de Carlos do Carmo), ou ainda a infantil Sobe Balão Sobe, a oca Playback e a  submissa inutilidade musical de Não Sejas Mau Para Mim. Em minha opinião, só se aproveitam mesmo E Depois do Adeus e algumas letras de Ary dos Santos. Claro que em Portugal também se faz boa música — escritores de canções como o genial José Afonso, mas também Rui Veloso e Fausto ou, por vezes, Sérgio Godinho, Tiago Bettencourt e Rodrigo Leão, entre outros, são prova disso. Mas a música destes autores sempre se dirigiu a outro tipo de audiência.

Voltando à Eurovisão, foi só após a entrega do troféu que Salvador Sobral decidiu filosofar em directo, em resposta à habitual pergunta sobre as razões para a vitória da sua canção. As palavras de Salvador foram as seguintes:


Vivemos num mundo de música descartável, de música ‘fast-food’ sem qualquer conteúdo. Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta, que é o que verdadeiramente interessa.

Antes de mais, acho infelizes e algo deselegantes estas palavras de Salvador, mesmo que se concorde totalmente com o que ele diz. São infelizes porque destacam sobretudo o demérito das canções concorrentes, sugerindo que não são verdadeiramente música. Isso equivale a desvalorizar indirectamente a sua própria canção. É quase como dizer que venceu por falta de comparência dos adversários ou porque eles eram demasiado fracos. São deselegantes porque o momento da vitória não é o mais adequado para depreciar os derrotados. Sobra ainda a questão filosófica.

Ao defender que a música tem de significar alguma coisa e que é suposto veicular sentimento, Salvador está a exprimir uma perspectiva filosófica acerca da música como se fosse consensual, sem o ser. A perspectiva expressivista da arte em geral — e, em particular, da música — tem as suas raízes nas reflexões de Tolstói e de R. G. Collingwood e, numa versão mais recente e sofisticada, da filósofa Suzanne Langer. Esta concepção da arte tem, contudo, sido sujeita a diversas objeções e contraexemplos, que não cabe agora aqui expor.

Basta lembrar que abundam os exemplos de música muito respeitável cujo conteúdo, consciente ou inconsciente, está longe de ser o sentimento. Sem dúvida que o sentimento pode ser um aspecto muito importante da música e que muita da melhor música tem, de algum modo, conteúdo emocional.  Mas dizer que a música é essencialmente sentimento implica desclassificar ou retirar do universo musical uma enorme quantidade de reputadíssimas obras e géneros musicais: de música concebida para ser dançada (das famosas valsas vienenses ao samba carioca), para acompanhar o trabalho (como o cante alentejano) para fins bélicos (marchas militares), para adormecer (canções de embalar), para orar (canto gregoriano), ou simplesmente com o intuito de repetir padrões sonoros interessantes (música minimalista) e até para acompanhar refeições (como, por exemplo, Tafelmusik do compositor barroco Telemann). 

Estará Salvador Sobral disposto a excluir tudo isto do universo musical? Será que não poderá haver aí boa música? E por que razão não pode haver boa música de dança, boa música electrónica, boa música repetitiva? Tem de haver sempre sentimento? Mas que sentimento há na conhecida canção Frère Jacques, que o grande compositor Gustav Mahler usa no terceiro andamento da sua Sinfonia Nº 1? Que sentimento é expresso pelas belíssimas Jazz Suites de Chostakovich? Sugerir que as canções concorrentes não são boa música digna de ser ouvida porque não têm sentimento é, no contexto em que a afirmação foi produzida, uma afirmação totalmente unilateral e descabida. É uma perspectiva filosófica sobre a natureza da musica perfeitamente legítima, mas não parece adequado avaliar os adversários, naquele momento, como se essa perspectiva fosse indisputável. 

Em suma, Salvador é um músico talentoso, mas se quer filosofar, poderia fazê-lo melhor e ser menos intransigente quanto a abordagens musicais diferentes. De resto, que maçada seria ouvir duas horas de canções carregadas de sentimento. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A importância da verdade

As civilizações nunca progrediram de modo saudável, e não podem progredir de modo saudável, sem grandes quantidades de informação factual fidedigna. Também não podem florescer se estiverem acometidas de infecções perturbadoras de crenças erróneas. Para estabelecer e manter uma cultura avançada, precisamos de evitar ser debilitados tanto pelo erro como pela ignorância. Precisamos de saber muitas verdades – e, claro, temos também de perceber como fazer um uso produtivo destas. 
Isto não é apenas um imperativo social. Aplica-se igualmente a cada um de nós, enquanto indivíduos. Os indivíduos precisam de verdades para conseguirem orientar-se com eficácia no matagal de riscos e oportunidades com que todas as pessoas se defrontam no decurso da vida. Precisam de saber a verdade sobre o que comer e não comer, como se vestir (dados os factos das condições climatéricas), onde viver (informação sobre falhas tectónicas, ocorrência frequente de avalanches e proximidade de comércio, escolas e empregos), assim como o modo de fazer aquilo que são pagas para fazer, como criar os filhos, o que pensar das pessoas que conhecem, o que são capazes de alcançar, e uma variedade infinda de outros aspectos corriqueiros e, contudo, vitais. 
O nosso sucesso ou fracasso em seja o que for que nos proponhamos – e, por conseguinte, na vida em geral – depende de sermos guiados pela verdade ou, ao invés, de avançarmos na ignorância ou com base em falsidades. Claro que também depende, de modo fulcral, daquilo que fazemos com a verdade. No entanto, sem verdade é que ficamos logo em maus lençóis ainda antes de começarmos seja o que for.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O lado bom da hipocrisia


Parece que o Papa declarou há dias que era preferível um ateu sincero e bem intencionado a um católico hipócrita. 

Eu, que sou ateu — pois tenho a crença persistente de que Deus não existe —, acho desinteressante distinguir as pessoas entre católicas, ou mesmo crentes, e ateias. Penso que há aspectos bem mais relevantes para avaliar o carácter e as atitudes das pessoas do que elas serem católicas ou ateias. 

Mas compreendo que, para o Papa, que é o chefe da família católica, a distinção possa ser relevante. Talvez, para ele, ser católico seja uma espécie de propriedade complexa que inclui uma série de outras propriedades mais simples como ser sincero, ser caridoso, ser honesto, e ser crente, claro. Contudo, para grande parte das pessoas, mesmo das que se dizem católicas, ser católico é pouco mais do que ser baptizado e participar nos rituais católicos. Será que o Papa queria dizer que essas pessoas não merecem verdadeiramente ser chamadas católicas? Ou será que queria antes dizer que ser católico nem sempre é, afinal, o mais importante? 

Não sei bem qual a interpretação correta, mas verifico que a hipocrisia tem má fama e que é um péssimo sinal alguém parecer hipócrita. Acho que esta é uma forma radical de ver as coisas, pois considero que a hipocrisia também pode ser um bom sinal. 

O que a hipocrisia tem de censurável é principalmente o seu carácter enganador: alguém que procura passar pelo que não é, livrando-se da maçada de ter de enfrentar a censura social quando não faz o que se espera de si. Neste sentido, a hipocrisia é um defeito epistémico, uma estratégia de ocultação da realidade. 

Mas isso também mostra que a hipocrisia é frequentemente a expressão de uma certa vergonha moral. "A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude", como escreve Peter Singer no saboroso livro Ética no Mundo Real, acabado de publicar entre nós pelas Edições 70. Uma sociedade em que, por exemplo, o machismo e o racismo não precisam sequer de ser hipocritamente mascarados é, apesar de tudo, pior do que uma sociedade em que a hipocrisia é o refúgio de machistas e racistas. Neste caso, tem-se ao menos a noção de que o machismo e o racismo são coisas vergonhosas, o que mostra, apesar de tudo, que estamos numa sociedade em que isso é inaceitável, o que é um progresso. 

Sem dúvida que nem o machismo descarado e auto-satisfeito nem o machismo hipócrita são aceitáveis. Mas a hipocrisia, embora sendo sempre um perigoso defeito, não deixa de ser um animador sinal de civilização.

Poder-se-á dizer que o machista descarado é ao menos sincero e torna-se mais fácil combatê-lo, por sabermos onde ele está, ao passo que o machista disfarçado é esquivo e difícil de combater. Mas creio que isto é ver mal as coisas, pois a parte mais difícil do combate ao machismo assumido é precisamente tornar, aos seus próprios olhos, vergonhoso o machismo.    

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O ano de 2017 é de Yuja

Quem o diz é a Musical America Awards, o que certamente quer dizer algo, mas não tanto como o que se pode ver e ouvir aqui, em que a jovem chinesa Yuja Wang interpreta o magnético segundo andamento (Adagio) do Concerto para Piano em Sol, de Ravel.



Como decidem aqueles que, como eu, não são músicos, nem musicólogos — nem sequer lêem partituras — se esta interpretação é melhor ou pior do que outras da mesma obra? Não estão autorizados a decidir seja o que for sem tais conhecimentos técnicos?

Claro que estão! Muito ficaria por explicar sobre a fruição musical e sobre a própria natureza da música, se as únicas opiniões respeitáveis fossem as dos especialistas com formação musical avançada. Como alguém dizia, não é preciso saber pôr ovos para saber apreciar o seu sabor. E acrescentaria que nem sequer é preciso conhecer a constituição molecular dos ovos para saber apreciá-los. Sem dúvida que conhecer a constituição molecular dos ovos pode ajudar a explicar por que razão os ovos têm o sabor característico que têm. Mas explicar uma coisa é diferente de justificar um juízo de valor sobre essa coisa.

Porém, daí não se segue que todos os juízos de valor sobre uma dada interpretação musical se equivalham. E também não se segue que o conhecimento técnico especializado não ajude a iluminar certos aspectos que explicam por que razão apreciamos mais umas coisas do que outras. O facto de esse conhecimento técnico não ser condição necessária não significa que não possa ser conhecimento útil. Na verdade, quando fazemos um juízo de valor acerca de uma dada interpretação musical, há normalmente algum conhecimento prévio implícito na justificação que apresentamos. Nem que seja o conhecimento de outros casos semelhantes com os quais implicitamente comparamos a interpretação que estamos a avaliar.

Mas, com que critério (ou critérios) uma pessoa sem uma sólida formação musical avalia uma dada interpretação?

A minha sugestão é que, se essa pessoa tem alguma cultura musical (ex: ouve regularmente o tipo de música em causa e essa obra em particular, interessa-se pelo que ouve e tentar perceber porquê, tem algum conhecimento do seu contexto artístico, etc.), mas não tem conhecimentos técnicos avançados, então ela tem tendência para tomar como modelo, ou referência, a interpretação que pela primeira vez a despertou (dado que muitas vezes ouvimos algo sem prestarmos verdadeiramente atenção).

Esta minha sugestão nada tem de filosófico. É apenas uma hipótese empírica baseada na minha observação. Vejo isso repetidamente no meu caso. A primeira vez que me deixei surpreender a ouvir este concerto de Ravel foi numa interpretação ao piano de Arturo Benedetti Michelangeli. A partir daí, e após repetidas audições dessa interpretação, todas as outras interpretações que ouço são mentalmente contrastadas com ela, como se ela fosse a matriz pela qual as outras vão ser avaliadas. E não é fácil evitar isso.

Mesmo assim, dei por mim a pensar que esta interpretação de Yuja Wang não tem a impessoalidade que imagino ao ouvir Michelangeli (impessoalidade no sentido de ser capaz de imaginar os sons de cada nota do piano como se estivessem a ecoar directamente da natureza e não de um agente humano), mas noto a agradável presença de alguém que, ao percorrer o teclado do piano, se deixa misturar com ela. O que me agrada de maneira diferente.

É muita imaginação minha? Certamente. Mas não é principalmente para isso que a música serve?

sábado, 29 de abril de 2017

Deus, o Universo e tudo o que existe



PEDRO: Parou de chover, graças a Deus.

HELOÍSA: Qual deus?

PEDRO: O único, o Deus criador.

HELOÍSA: Criador de quê?

PEDRO: Ora, criador de tudo!

HELOÍSA: Mas tudo é muita coisa.

PEDRO: Pois é. Por isso é que Deus é único, em muitos aspectos, incluindo quanto ao seu ilimitado poder. Foi com esse poder que criou tudo quanto existe. Assim, ele é o criador tanto do que se vê como do que existe mesmo sem se poder ver.

HELOÍSA: Vejo os sapatos que tenho calçados. Foi Deus que os criou? Consigo ver a Torre Eiffel. Foi Deus que a criou? E não consigo ver, mas sou capaz de ouvir, a Quinta Sinfonia de Beethoven. Afinal o seu criador foi Deus e não Beethoven?

PEDRO: Estou a ver que estás a interpretar "tudo quanto existe" de uma forma algo diferente do que se pretende. Não devemos fazer caricaturas.

HELOÍSA: Como devo interpretar, então, essa expressão?

PEDRO: Ok, talvez seja mais adequado dizer antes que Deus é o criador do Universo. Compreendes agora o que queria dizer?

HELOÍSA: Mas consultei um vulgar dicionário de português e lá diz que o Universo é tudo o que existe. Ora isso inclui na mesma os meus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven, pelo que não encontro diferença.

PEDRO: Estou a ver a tua dificuldade. Mas, em certo sentido, é correcto dizer que Deus criou os teus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven.

HELOÍSA: Em certo sentido? Que sentido é esse?

PEDRO: No sentido em que ele é a causa primeira do Universo e que, portanto, é indirectamente a causa de tudo o resto. Sem ele, os teus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven não poderiam sequer existir.

HELOÍSA: Estou a ver. Nesse mesmo sentido, é também correcto dizer que a minha bisavó materna, que nem a própria filha chegou a conhecer, criou o desenho que acabei mesmo agora de fazer. E os antepassados dos trabalhadores da fábrica de calçado onde estes sapatos foram criados também foram, indirectamente, criadores dos sapatos. E, quem sabe, talvez mesmo D. Afonso Henriques tenha sido também um dos criadores indirectos destes sapatos. E, já agora, não seria totalmente disparatado dizer que, a terem existido realmente, talvez Adão e Eva sejam criadores indirectos da Torre Eiffel e da Quinta Sinfonia de Beethoven.

PEDRO: Por favor, nada de caricaturas!

HELOÍSA: Limito-me a seguir o teu raciocínio. Aliás, de acordo com ele, quanto mais antiga for uma pessoa e quanto mais descendência tiver deixado, mais coisas essa pessoa criou, ainda que indirectamente. E daí chegamos a Deus, o primeiro de todos, que desencadeou todas as criações que conhecemos.

PEDRO: Calma aí! Não estás certamente a levar em conta um poder que apenas Deus tem.

HELOÍSA: Que poder é esse?

PEDRO: É o poder de, a todo o momento saber tudo o que se passa no mundo e de, a todo o momento, intervir para que umas coisas aconteçam e outras não cheguem a acontecer.

HELOÍSA: Estou a ver, os meus sapatos existem porque, de alguma maneira misteriosa para nós, foi Deus que quis que eles existissem.

PEDRO: Mais ou menos isso. E também que foi Deus que inspirou Eiffel a projectar a torre que se encontra em Paris e inspirou Beethoven a descobrir aquela estrutura sonora que constitui a Quinta Sinfonia. E dizemos que a sinfonia é de Beethoven apenas porque Beethoven nos parece a causa mais próxima. Também dizemos que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, quando havia pessoas que já lá estavam antes disso. Não nos devemos deixar levar pela maneira como frequentemente falamos, que nem sempre tem de ser precisa.

HELOÍSA: Percebo. Estás no fundo a referir aquilo a que outros chamam simplesmente inspiração, sem precisar de meter Deus na conversa. Só que, além de isto me parecer muito pouco, deixa-me algo intrigada.

PEDRO: Com o quê?

HELOÍSA: Imagina a quantidade de disparates produzidos por seres humanos, do lixo às armas nucleares, de obras que agridem outros seres humanos e a Natureza a obras que supostamente insultam o próprio Deus. Será também Deus o inspirador e criador indirecto dessas coisas?

PEDRO: Nunca ouviste dizer que essas coisas manifestamente más, feitas exclusivamente por seres humanos, resultam de uma coisa em si mesma boa, que nos foi concedida por Deus?

HELOÍSA: Estás a falar de quê?

PEDRO: Estou a falar do livre-arbítrio, claro. Se Deus interviesse em rigorosamente tudo o que fazemos, não deixaria lugar para o nosso livre-arbítrio, que é uma coisa boa, embora muitas vezes a apliquemos mal.

HELOÍSA: Nesse caso o que defendeste atrás de nada serve, pois Deus não é, afinal o criador de tudo quanto existe — ou, se preferires, do Universo, que vai dar ao mesmo.

PEDRO: Bom, talvez não vá dar ao mesmo. Reconheço que tenho de precisar melhor o que se entende por "Universo".

HELOÍSA: Mas não tínhamos dito que o Universo é tudo quanto existe?

PEDRO: Sim, mas não fomos suficientemente precisos.

HELOÍSA: Então?

PEDRO: O Universo não é tudo o que existe mas antes o lugar onde tudo existe.

HELOÍSA: Ah, mas isso já é outra coisa. Confirmas, então, que de nada serviu grande parte da nossa conversa anterior.

PEDRO: Bem, às vezes temos de começar por ideias imprecisas para chegar a bom porto. Aprende-se sempre algo pelo caminho, mesmo que este dê voltas estranhas.

HELOÍSA: Podemos, então resumir o que tens estado a dizer em duas frases: 1) Deus é criador do Universo e 2) O Universo é o lugar onde tudo existe.

PEDRO: Certíssimo.

HELOÍSA: Logo, Deus não é criador de tudo quanto existe.